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Se nada mais der certo pra mim, pego esse computador bato na cabeça do meu patrão até ele desmaiar, depois roubo um caminhão e dirijo a noite toda como um prisioneiro fugitivo, aí vou para a amazonia onde começarei vida nova com uma criação de peixes voadores...
"Quando a humanidade erra, os Deuses tratam de puni-la com morte, praga, fome e guerras; mas e quando os Deuses erram? Quem os pune? E que tipo de punição eles terão?"

-Bem-vindos a Saga dos Assassinos de Deuses

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Alma Nova 13 - Somos O Que Devemos Ser, Somos Quem Podemos Ser

No Capitulo Anterior de Alma Nova... 
A “Resistência Aioros” começa a se organizar e Hana aceita o papel imposto de Athena e, ao mesmo tempo em que questões importantes são discutidas, Ares continua a perder o controle para com o Santuário e para com ele mesmo. Enquanto tramas e estratagemas estão sendo traçados, Marin, descoberta como uma traidora, começa a ser torturada por Moses de Baleia e Asterion de Cães de Caça, que planejavam com isso trazer para uma armadilha parte dos “traidores” ou pelo menos o irmão da amazona. 
Marin conseguirá escapar? Hana será realmente Athena? Saga voltará à tona para deter os planos malignos de Ares? Não percam mais um capitulo de Alma Nova.

*****

Milo estava em um humilde casebre, sentado com um nutritivo prato de sopa na mão, alimentando uma jovem que estava deitada em sua frente. Ela estava em um estado deplorável, sua pele estava solta nos ossos, flácida e suja, completamente doente. Nada que ele fizesse a ajudaria, até mesmo aquele sorriso sedutor que desmancharia o coração dela naquele momento não era nada.

O futuro cavaleiro de escorpião, o qual adorava sua vida mundana à sua vida sagrada, agora só queria ter uma vida divina, para tirar toda a dor e a tragédia de um único ser... Dela.

- Vamos, coma garota. Como você quer melhorar sem se alimentar? – dizia Milo pelo quinto dia seguido. Seu treinamento havia parado devido a um cavaleiro que havia enlouquecido e começado a fazer chacinas pelas vilas da Itália. Como havia mais gente cuidando da caça desse famigerado criminoso, ele ficou para cuidar das vítimas. Não sabia se felizmente ou infelizmente, ela era a única.

- Sabe que não tenho fome, sabe que eu não tenho sede e que só posso morrer quando aquele demônio que matou minha família e destruiu minha vila morrer(?)/ for capturado(?)/ tiver o que merece(?). Aquele demônio que destruiu minha vida. Se eu tivesse poder para matá-lo, eu teria um objetivo, mas só pude ver minha vila ser carbonizada. – Não havia emoção nas palavras dela, só havia certeza e fatos inexoráveis.

- Já lhe contei que estamos trabalhando nisso, já te contei sobre o que nós fazemos. Vamos pegá-lo e dar-lhe uma lição que ele não gostará. Portanto, considere-o morto. Vamos falar mais sobre o que você vai fazer da sua vida. – dizia Milo com seu melhor sorriso e com seu tom de voz mais animador. – Você só não vai poder contar o que fazemos, a menos que você queira ser do Santuário. Não há apenas cavaleiros, ou aprendizes de cavaleiros como eu, mas também há oficiantes, gente que faz o bem, mas não luta...

- Já te disse, só quero ter a certeza de que quando eu morrer, ele já esteja morto. Não quero saber se irei viver, apenas quero que ele morra. – dizia olhando para o fundo dos olhos do escorpiano.

Havia tanta certeza naqueles olhos quanto a de um cavaleiro de ouro experiente, havia as dores físicas, e também as emocionais, de um treinamento de um cavaleiro de ouro podiam ser facilmente vistas ali. Havia um motivo para um querer, maior que a própria vida. Havia uma banalização da morte. Milo não apenas sentia pena, mas sentia como se estivesse falando com um cavaleiro de Athena ou qualquer outro servo de qualquer outro deus. Sentia-se conversando com uma igual, uma solidariedade. Tinha um sentimento que poderia ser ele naquele estado, uma compaixão não apenas por ela ser uma vítima.

Abruptamente, além disso, sentia aquele cheiro adocicado de rosas cortando sua nostalgia de memórias. Via-se novamente sentado nas escadarias da oitava casa zodiacal, com o cavaleiro de peixes em pé a sua frente.

- Se eu fosse um inimigo, você poderia ter morrido. – dizia Afrodite.

- É... – dizia Milo com seus pensamentos ainda naquela mulher em cima daquela cama. – Eu poderia ter morrido...

E havia apenas um nome gravado no oitavo degrau da oitava casa zodiacal, escrito pelo prenuncio da agulha Antares.

Irynna.



*****



No orfanato Filhos das Estrelas, todos ainda estavam recuperando as forças para o próximo passo da resistência. Thouma foi colocado no quarto de Mihu, com a mesma como sua companhia. Ela fazia questão de trocar as bandagens do cavaleiro de Pegasus e observar se sua febre havia passado. Havia alguma coisa no ruivo que a deixava com o mais puro desejo de protegê-lo, cuidar de suas feridas, como se pudesse acontecer qualquer coisa com ele, mesmo que sentisse que ainda sim ele sempre voltaria para ela.

Mihu ria de si mesma. Sempre foi uma moça certa e direita, tinha seus pretendentes, mas sempre esperava que fosse alguém de sua idade, ou de sua realidade pelo menos. Ele era exótico demais para ela, mas nada a proibia de sonhar.

Thouma estava melhor que Isaak, mas era o segundo pior em condições físicas. Algumas de suas feridas, causadas ainda pelos golpes da amazona de Fênix, tinham sido abertas. Havia também as sequelas do Golpe Fantasma, que não deixava sua mente funcionar sem flashs daquele pesadelo quase real. Apesar de suas condições físicas, ele admitia intimamente que era bom ser cuidado daquela forma pela garota de cabelos azuis. Ela trazia um pouco de amenidade aos pesadelos que sofria mesmo quando acordado.



*****



No hall de entrada, estava Kiki, dormindo sentado em um dos sofás, Garan, Shun, Hana e Okko, por sua vez, estavam apenas a discutir. O cavaleiro de Dragão, apesar de não ser o melhor em forma física, parecia ser o único capaz de dar atenção aos planos da Resistência, Isaak, Thouma e Shiryu estavam em uma grave situação, e Pandora estava cuidando do cavaleiro de Cisne e do jovem cego. Cabia a ele, portanto, saber dos próximos passos.

- Okko, não é?! – perguntava Garan, sendo confirmado pelo próprio. – Fico imensamente agradecido pelo que você e os outros cavaleiros de bronze fizeram até agora.

- Não precisa agradecer. É nossa missão e fomos treinados para isso. Pelo menos eu. – dizia Okko, que lembrava de Isaak, apesar de ter duvidado, ter lutado ao lado deles, e também de Esmeralda, que se converterá no ultimo momento, e que morrera ao lutar contra Shaka, um dos cavaleiros de ouro.

- Tem razão. – dizia Hana saindo dos braços de Shun, indo abraçar o cavaleiro de Dragão. – Muito obrigada. Não agradeci a vocês ainda por cuidarem de mim e por me protegerem. Obrigada, por tudo. Espero que eu possa retribuir essa confiança que vocês depositam em mim.

Okko ficava constrangido, não sabia lidar com situações onde violência não era necessária, não sabia se deveria retribuir ao abraço ou manter-se impassível. Mas aquele afeto era bom, era calmante. Dava a sensação de querer sempre defendê-la.

- Fico mais tranquilo em saber que ela está em boas mãos. Posso partir em paz. – diz Garan.

- Como assim, mestre Garan? – Indagava Okko, com Hana olhando-o também com a mesma pergunta com nos olhos.

- Não posso ficar, estava para me encontrar com mestre Mu para discutir os próximos passos. Ia com Marin, mas ela foi designada para uma missão. Quis passar aqui antes de ir para tal encontro para encontrar Athena em sua forma humana. – diz Garan. – Mas não se preocupe. Vocês são capazes de proteger Athena, custe o que custar. Inclusive, pedi para mais um dos nossos aliados vir para cá ajudar. Sinto seu cosmo, ela já deve estar por perto.



*****



Marin novamente acordava com uma dor enorme, só lembrava-se de ter resistido bravamente à leitura mental de Asterion e depois de ter sido espancada agressivamente por Moses. Não pode ao menos lutar por ter se concentrado tanto em não deixar sua mente fraca, o corpo cedeu em uma rigidez quase cadavérica. Não lembrava muito bem como estava naquela situação. Depois do espancamento, provavelmente uma amnésia temporária acontecia devido a algum trauma ocorrido, esperava que não fosse craniano.

Pelo menos, eles não haviam tirado sua máscara, por mais que fossem facínoras, respeitavam a ordem de nunca retirar a máscara de uma amazona. Ou apenas esperavam fazer isso em um momento mais propício.

Via o mundo de cabeça para baixo, via que estava crucificada na praia e de cabeça para baixo. Sentia mais dor do que nunca, mas ainda forçava o bloqueio mental, sua vida não valia nenhuma informação sobre a Resistência Aioros. Na verdade, ela tinha que dar um jeito para derrotar os dois mesmo naquele estado. Os cavaleiros de bronze tinham sobrevivido e possivelmente estavam com Athena. Se fossem descobertos, Athena estaria em risco.

Era difícil manter a concentração com tantas dores fazendo parecer que sua cabeça iria explodir, e ainda mais planejar. Porém, bastaria um erro, e todos os sacrifícios feitos até agora iriam ser em vão. Tinha que se manter firme. Olhava para seus dois inimigos e tentava ouvi-los, mas o barulho do mar e suas próprias dores abafavam o som de suas vozes.

Asterion percebe que ela estava acordada, e já se punha a caminhar em sua direção. Marin tentava escapar, porém além de pregada estava amarrada, incapaz de liberar seu cosmo. Não era uma guerreira como Moses, era uma planejadora, assim como Asterion.

- Vejo que acordou e mesmo depois de tantos ferimentos aposto que está usando todo o cosmo que lhe resta para manter seu maldito bloqueio mental, não é?! – Asterion aplica um soco na mandíbula da ruiva. – Não se preocupe, vamos dar um jeito de chamar seu irmãozinho, é evidente que ele está vivo. Se ele for seu irmão consanguíneo mesmo, será mais fácil achá-lo ainda. A ressonância de seus cosmos deve ser parecida, bastar usar você como filtro e trazê-lo aqui! Só espero que ele não tenha tanta fibra quanto você.

Asterion colocava uma das mãos em cima da máscara da amazona de Águia, nada ela poderia fazer para detê-lo. Não podia negar o que ela era realmente, irmã de Thouma de Pegasus...



*****



- Como assim não há notícias dos cavaleiros de prata enviados para o Japão? – Gigars estava desesperado, pois cinco cavaleiros de prata tinham partido para missões simples. Estava testando demais a paciência do Grande Mestre e a misericórdia de Athena.

- Os cavaleiros de Centauro e Lagarto não deram noticias, os de Águia, Cães de Caça e Baleia apenas informaram que encontraram o corpo dos cavaleiros de bronze da rebelião, além de Docrátes, mas isso já tem mais de 3 horas, estamos sem comunicação alguma. – Piton dizia sem ao menos olhar a face de seu mestre, abaixado em servidão para o homem mais próximo de suceder o Grande Mestre Ares. Era difícil para ele dar notícias de fracasso, mas ele tinha que as reportar.

- Isso são péssimas noticias. Era simplesmente para os cavaleiros negros matarem aquela falsária, junto com Docrates que seria nomeado outro traidor, e Shaka mataria todas as testemunhas. Simples, mas tinha que haver intromissão dos cavaleiros de bronze e sabem-se lá quem mais que está nesse complô. – O asqueroso cavaleiro de Altar, com seu olho de joia, tinha engasgos de frustração pelo seu plano perfeito ter ido por água abaixo. – Só pode haver um traidor aqui para essa maldita rebeliãozinha ter tanto êxito assim.

- E de quem suspeita, mestre? O nível de informação que eles teriam haveria de ser no mínimo um cavaleiro bem próximo do Grande Mestre, do senhor e de Athena. – dizia Piton, que de repente engasgava, pois ele poderia ser um dos suspeitos.

- É difícil saber, nem mesmo eu poderia saber de tantas coisas. Apenas se o próprio mestre ou nossa Athena tivesse falado para com a Resistência. Tem que ser alguém bem manipulador e que esteja bem debaixo de nossos narizes. Teria que ser alguém disposto a isso e que tenha agido estranho desde a tomada desse plano. – Por um momento, algo parece fazer sentido na cabeça de Gigars. – Onde está Shina, a amazona de Cobra?

-Shina? Não há mais sinais dela desde que o irmão de Marin conseguiu vencer o discípulo dela, que era o irmão de Docrates. – Ao dizer essas palavras, encaixavam a mesma situação em sua cabeça.

- Shina é a nossa traidora...



*****



Thouma estava numa praia deserta, sem alma viva alguma por perto. Tudo que via eram as ondas do mar, indo e voltando lentamente, em sua dança marítima eterna conhecida como maré. Era um ambiente de calma e paz, mais do que ele sentia, desde muito tempo. Tudo era tão previsível, com uma plenitude infinita.

Daquele horizonte azul algo se destacava: uma cruz invertida. Forçando um pouco mais a vista, via uma mulher crucificada de cabeça para baixo, com o nível do mar chegando aos seus olhos. Tentava levantar-se, mas os sangramentos de vários ferimentos recentes tinham exaurido suas forças por completo, era sua própria vontade de viver contra um corpo fatigado querendo apenas desistir. O cavaleiro de bronze reconhecia aquela mulher. Era a amazona de prata da constelação de Águia. Era Marin, sua irmã, sua mestra, sua família. Correu em sua direção aflito, desesperado para salvá-la.

Ao tocar na água, surgiu um homem enorme, cheio de cicatrizes e com um olho perdido, que o pegou pelo rosto para afogá-lo em quinze centímetros de água. Thouma apenas podia respirar quando a maré se afastava. Nesses breves momentos, foi ainda capaz de notar que esse cavaleiro não estava sozinho, viu mais um par de pés, que depois se tornaram três pares, e depois ainda nove, para depois apenas ser novamente afogado pela maré que voltava.

De repente, era jogado para o ar com uma força arrebatadora. Não conseguia mover um músculo sequer com o atrito do ar em seu corpo. Não conseguia respirar, e em um último flash de consciência, via as nuvens como chão e o céu escurecendo cada vez mais. Quando recuperava a consciência novamente, estava caindo, ainda sim, sem poder se mover.

Conseguia ver na queda o chão se aproximando. O que eram cores voltavam a ser a praia, aquele monstro que o havia arremessado e aquela centena de cavaleiros idênticos, até que tudo se tornou apenas o punho daquele cavaleiro acertando-o em cheio, estourando seu elmo, e lhe causando um traumatismo forte.

Caía inerte no chão, agradecendo por não estar morto, arrastava-se para salvar sua irmã, até ser puxado por um dos cavaleiros, que eram muitos e um só ao mesmo tempo, sendo agredido por apenas um, enquanto todos os outros observavam sadicamente seu massacre. Não conseguia levantar-se mais, nem ao menos rastejar.

Enquanto o cavaleiro não parava de se multiplicar, um dos milhares homens que estavam a sua volta abaixou-se e disse:

“Venha nos deter, senão faremos coisa muito pior com sua irmã do que espancá-la e matá-la.”

Thouma levantou-se e disparou um raio, mas quando viu estava no orfanato com um enorme rombo feito em uma das paredes. Mihu olhava-o assustada por conta desse ataque. Não entendendo nada, Pegasus cai exausto sendo amparado pela governanta do orfanato que trata de colocá-lo em cima da cama novamente com grande esforço.



*****



June chegava à costa com Spika e Heda ainda desmaiados na jangada que eles escaparam da devastação do cavaleiro de Touro sobre a ilha de Andrômeda. Confiava que seu mestre, um dos principais homens da “Resistência Aioros”, o de prata mais poderoso, poderia lutar de igual para igual, porém já havia um bom tempo que não sentia mais os cosmos de ambos.

Olhava para praia, enquanto esperava Albior aparecer ferido, pois uma luta entre dois cavaleiros de ouro poderia durar até mil dias. Mas encontrou o cavaleiro de Cefeus mais cedo do que esperava. Chorava em desespero, seu mestre e seu pai estava morto ali na sua frente. Boiando com a armadura de Cefeus destruída, e com uma rosa fincada no peito.

Os poderes do cavaleiro de Touro superaram o cavaleiro protetor da ilha de Andrômeda. O ódio cegava June, porém ela não gritava, pois seus companheiros precisavam de descanso e não precisavam ver isso.

A pergunta que restava era: como o Santuário descobriu, se apenas a alta-cúpula da “Resistência” sabia quem eram os cavaleiros, e se todos tivessem metade do caráter e devoção à verdadeira Athena que Albior tinha, eles nunca falariam. Apenas uma palavra veio iluminar sua mente: Pandora.

Eles foram traídos por Pandora e eles teriam que detê-la antes que ela mesma desse um jeito para destruir a Resistência ou mesmo matar Athena a mando de Ares e da falsa Athena. Mas primeiro teria que enterrar um nobre cavaleiro.



*****



Adentrava na porta do orfanato, uma jovem de cabelos e olhos tão azuis quanto um céu de um dia de sol radiante. Mesmo naquela altura da madrugada, nada dela estava a mostra, estava coberta por mantos além de uma máscara que lhe cobria o rosto, apenas deixando que, de relance, fosse vista uma tatuagem no antebraço direito com o nome de Athena em grego arcaico. Ela parecia trazer paz àquele ambiente.

- Apresento a vocês a Sacerdotisa Lynna, irmã do cavaleiro de ouro Kamus de Aquário. Ela é uma poderosa sacerdotisa, uma ótima amiga e um ser único e iluminado. – Sorria Garan ao apresentar a amiga de longa data.

- Exagera nas palavras, nobre amigo. Sou assim como você uma serva aos desígnios de Athena e da justiça. Não atuando como guerreira, mas sim como uma guia, um oráculo para Athena e seus servos combatentes. – dizia a sacerdotisa Lynna, com sua voz abafada pela máscara, mas ainda sim, uma voz melodiosa.

- Uma sacerdotisa mascarada, mestre Garan? De acordo com os tomos antigos apenas as guerreiras de Athena, a apenas as guerreiras sagradas devem esquecer sua feminilidade e abraçar a causa de Athena. – dizia o Cavaleiro de Dragão, citando as sagradas escrituras de Athena, quase que literalmente.

- Muito bem, mestre Okko. – dizia Lynna sinalizando para Garan não intervir em sua explicação. – Sou amaldiçoada, o primeiro cavaleiro que olhar para meu rosto irá se apaixonar imediatamente. Por isso, fugi do Santuário há muito tempo. Escapei da tirania de Ares e da falsa Athena, muitas sacerdotisas foram mortas para a farsa de Ares não ser descoberta. Sou uma das poucas vivas.

- Sei que não faço parte dessa revolução. – O diretor do Orfanato começava a falar. – Mas o que uma sacerdotisa iria ajudar nessa guerra? Ao que parece, vocês precisariam de guerreiros e não de sacerdotes.

- Eis que você se engana, mestre Shun. – diz Garan. – Ela cuidará que Hana manifeste e controle seus poderes como deusa. Já que esse seria o dever do Grande Mestre. Mas deverei partir, tenho encontrar a Alta-Cúpula da resistência e ver como vamos fazer para atacar o Santuário.



*****



O cavaleiro de ouro da casa de Touro estava boquiaberto com o que o cavaleiro de Cefeus havia dito para ele. Todo Santuário era manipulado por uma falsa Athena, e o Grande Mestre na verdade não era quem dizia ser. Era difícil acreditar naquilo, era uma época boa para o mundo, já havia no mínimo alguns anos que não havia uma guerra santa. O máximo que havia eram os problemas internos do Santuário que ecoava o nome de Aioros até hoje. Mas nunca houve tantas mortes entre os aprendizes que discordavam do avatar de Athena ou mesmo das decisões do Grande Mestre.

Acreditava em castigos, mas não em execuções sumárias, mas esse era o atual ambiente do santuário de Athena. Admitia que ser um cavaleiro de Athena não era uma profissão, mas sim uma vocação, um talento, um dom, e não uma maldição, como muitos diziam. Na verdade, “ser cavaleiro de Athena é uma maldição” era uma das frases mais proferidas nessa época. Talvez Aldebaran fosse o único que acreditava que ser um cavaleiro de Athena, não era uma maldição.

Ao conversar com Albior, não via um traidor, ou mais um que dizia que ser um cavaleiro de Athena era uma maldição. Muito pelo contrário, podia-se quase tatear o orgulho de ser um santo-guerreiro de Athena. Sua devoção, o carinho que ele falava dela, a honra de ser um cavaleiro, a benção de ser alguém com o poder de servir a uma causa maior, e a mesma coisa ele sentia pela Resistência Aioros. Sentia-se conversando consigo mesmo.

Realmente, era muito difícil compreender as escolhas de cavaleiros dessa geração, era estranho. Era difícil acreditar que Máscara da Morte era um cavaleiro como ele. Era muito difícil compreender as coisas como eram sob a ótica de quem está dentro do problema.

Era muito mais fácil acreditar que uma falsa deusa estava no Santuário sendo manipulada por um ex-Cavaleiro que deseja ter os domínios de Athena, usando de artimanhas como mentiras, devoção, fé, discórdia... Por mais que ele quisesse acreditar nas duas versões, a verdade estava em uma linha tênue entre as duas linhas de pensamento. O melhor que ele podia fazer era no momento se omitir e deixar que os fatos se mostrarem para ele. Pelo menos, Albior estava vivo, era o beneficio da duvida que o cavaleiro de Touro dava para a famigerada “Resistência Aioros”...



*****



Há 23 anos atrás...

Um jovem lemuriano estava consertando a armadura de Aries, que há muito tempo havia sido danificada, mesmo em tão baixa idade, ele era o Mestre de Jamiel. Não se achava digno de tal missão que lhe foi passada, existiam poucos de seu povo. Ele era dos raríssimos que não tinha uma gota de sangue humano em suas veias, era apenas por isso que era o Mestre de Jamiel. Terra adotada pelo povo escolhido de Athena.

Na verdade, seu mestre é que deveria estar em seu lugar, mas por coincidência ele também era o Grande Mestre do Santuário. Shion, o cavaleiro da casa de Aries, um dos dois únicos sobreviventes da última guerra contra Hades que se tem registro. Achava que o outro sobrevivente, o humano conhecido como Mestre Ancião, deveria cumprir essa missão, mas eles tinham seus motivos e ele não iria discordar de cavaleiros de tamanha sabedoria.

A armadura de Aries estava prestes a ser concluída, o jovem Mu usava de seu próprio sangue para consertar as armaduras. Afinal, era a armadura de seu mestre, o qual ele mesmo tinha uma devoção e orgulho de ser seu discípulo. O que geralmente acontecia, era que um cavaleiro desse o sangue para consertar a armadura do discípulo. Era um trabalho solitário, mas ser um lemuriano era ser solitário. Vivendo três vezes mais que um humano normal, Mu já teve sua fase revoltada, teve família, tentou fugir de seu fardo, mas viu toda a sua família mudar, envelhecer e morrer, enquanto ele continuava o mesmo.

Sem ao menos sentir qualquer cosmo, sentia uma mão em seu ombro enquanto deixava a mente voar e a inspiração de sua arte de ferreiro vibrar por suas mãos. Ao olhar para trás via seu mestre sobre as vestimentas do sacerdócio. Sorria para o mesmo, por ele mesmo ver que seu trabalho estava sendo feito o melhor possível.

- Mestre Shion, fico imensamente feliz por vê-lo aqui. Estava exatamente trabalhando em sua armadura. – dizia Mu.

- Vejo que fiz a melhor das escolhas ao torná-lo mestre de Jamiel. – Sorria por debaixo da máscara. – Só esperava que eu pudesse doar meu sangue para a armadura de Aries, a qual já me salvou diversas vezes a vida.

- Preferi fazer do meu, para o senhor carregar um pouco de mim quando voltar a vesti-la. – dizia o mestre de Jamiel, que na presença do Grande Mestre do Santuário se sentia um feliz aprendiz.

- Estou velho para isso, meu caro. Se tiver mais vinte anos de vida será muito. Meu ciclo de vida está acabando e um novo ciclo de vida deve começar. – Shion passava as mãos nos pulsos cortados de Mu, cicatrizando imediatamente os ferimentos. – Você é o novo cavaleiro de Aries.

- Como assim, mestre? – Mu estava surpreso com o fato, sentia um misto de sentimentos e confusões. – Eu sou meramente o ferreiro.

- Não diga isso, você tem o poder, o coração e a alma de um cavaleiro. E você será necessário para alguns anos, os quais possivelmente você será o líder de nosso povo, assim como eu sou. Você é como um filho para mim, em quem mais posso confiar? – As palavras do antigo cavaleiro de Aries não eram, como eram sempre, as ordens de um líder sábio, mas sim o pedido de um pai amoroso. – Estou vendo uma sombra no futuro e temos que estar preparados para o que pior aconteça. Estou dedicado demais procurado a pessoa que trará Athena a esse mundo. Portanto, passo a você o dever de cuidar de Jamiel, de encontrar e treinar o futuro mestre de Jamiel e um futuro Grande Mestre para suceder meu escolhido.

- Eu? Porque, mestre? E como assim o sucessor do seu escolhido? – Mu estava demasiadamente confuso com tudo aquilo.

- Sim, temo que teremos outra guerra santa se aproximando, e creio que eu já esteja morto antes dela acontecer. Gostaria que você fizesse isso, e quando eu partir, procure o mestre Ancião. Ele guiará você. – O grande mestre rasgava um de seus pulsos e colocava o sangue na armadura. – Queria que você fosse o novo grande mestre, mas nós, lemurianos, somos um povo de paz, Lemuria deixou de existir a muito tempo, o real dever de escolhas deve vir de um humano, o povo protetor de Athena.

Mu ainda estava confuso com tudo isso, estava feliz de ser essa pessoa que seu mestre confiava, e estava triste, pois sabia que nem mesmo os lemurianos eram eternos, havia um pingo de esperança que Shion fosse, mas infelizmente ele não era.

- Procure dois discípulos e os treine de acordo com o seu coração. Esses dois serão o futuro de uma geração de paz. – Shion fechava o próprio ferimento. – Sorria, cordeiro de Athena, pois você é a pessoa que vai continuar o meu legado de Mestre de Jamiel e de como Cavaleiro de Aries.

O novo cavaleiro sorria e chorava de emoção e se colocava a trabalhar na sua nova armadura, feita de seu sangue e do sangue de seu mestre. Uma verdadeira armadura lemuriana, usaria-a como todos os lemurianos antes dele. Com honra, proteção e amor.

Alma Nova 12 – Dualidade: Quando os Deuses são os Humanos.

No Último Capítulo...

Aldebaran lutou com Albior tendo como resultado a Ilha de Andrômeda apagada do mapa e Albior conversando abertamente com o cavaleiro de ouro. Já o cavaleiro de prata de Cristal não teve a mesma sorte, foi congelado em gelo eterno por seu mestre\amigo Kamus de Aquário, como um exemplo com o que acontece com traidores e como um símbolo sagrado da “Resistência Aioros”. Máscara da Morte tentou matar o mestre Ancião e Shunrey, mas graças a Mu de Áries não houve mais uma chacina.

Os cavaleiros de bronze, por sua vez, estão em um estado deplorável, principalmente Isaak que fora atingido pela “morte negra”. Pandora ficou designada a proteger Hana, e Garan, servo da casa de Leão, cuidou dos ferimentos de Thouma, Isaak, Okko, Kiki e Shiryu.

Quais serão os passos tanto do Santuário quanto da Resistência Aioros? Não perca mais um capítulo de Saint Seiya – Alma Nova.

******

19 anos atrás...

Aioros ainda estava chocado com o anuncio, estava completamente em choque. Não queria essa honraria, ela pertencia ao seu amigo Saga, queria liberdade, proteger os humanos como sempre fez e, quem sabe, ser um deles. Mesmo assim, Aioros era parabenizado por todos, pelos cavaleiros de prata que serviam como guardiões, pela sacerdotisa que iria ter Athena, pelos oficiantes-auxiliares; mas ao procurar o único que realmente lhe importava naquele salão sentia que o lugar estava vazio.

Saga estava nos corredores subterrâneos do Santuário, uma rota segura de fuga para Athena e outros que não fossem cavaleiros em tempos de guerra, um lugar que abafava o cosmo de um deus. Sempre ia para ali quando estava com seus problemas, preferia escondê-los, suprimi-los ao máximo, porém esquecia que ele não podia fugir de si mesmo. Não podia fugir do sentimento de não ser o Grande Mestre para proteger o Santuário que tanto ama, Santuário ao qual ele fez tantos sacrifícios como o de seu amor e de seu irmão que padeceu como um criminoso indigente. Tudo isso para ser rejeitado, ter seu maior sonho destruído.

-Está vendo o que ganhou com tanta devoção? Apenas ingratidão.

A voz parecia com a sua, parecia que vinha de todo lugar e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Será que Kanon, seu irmão, havia sobrevivido? Somente ele poderia achá-lo ali, mas era impossível que estivesse vivo. Ninguém sobreviveria. Ninguém sobreviveu.

- Ainda com remorso por ter matado seu irmão? De ter estripado uma parte de você? E não, não sou seu irmão, mas sou parte dele, sou tudo que você reprime e anseia. Eu sou você.

- Não pode ser. Não sou como meu irmão. E não estou ficando louco. – O cavaleiro de Gêmeos tapava os ouvidos com força, quase estourando sua cabeça. Era apenas uma situação traumática para ele. Forçava sua mente a também suprimir aquela voz, mas ela apenas se tornava cada vez mais clara.

- Não adianta, eu sou você. E não me confunda com seu irmão, ele morreu injustamente, sem um julgamento de seus semelhantes, pela pessoa que ele considerava mais importante. Morreu pelas suas mãos.

- Ele era um traidor, um assassino, um conspirador. Queria governar a Terra, não queria ser mais vassalo, mas sim um suserano! – Gritava Saga com os dentes cerrados, e quase estourando sua própria cabeça.

- Não! Ele queria a mesma coisa que você tentou desejando ser o Grande Mestre. Apenas proteger com as suas próprias mãos tudo que acreditava. Ele podia ser maligno em sua concepção cega e manca, mas ou você morre como herói ou vive o bastante para ver você mesmo se tornar o vilão. Por isso que ele contou para você, ele lhe deu a missão de ser o seu limite moral, a sua âncora, e o que você fez? Trancafiou-o para morrer de acordo com seu parâmetro de justiça.

- Mestre Shion concordaria comigo!

- E acha justo o que ele fez? Quem por acaso é a justiça? Ele ou Athena? Você ou Athena? Athena é apenas uma arma, um instrumento, o real deus é o Grande Mestre que manipula uma criança, ensinando-lhe sua justiça. A justiça é questão de um ponto de vista, não há justiça absoluta. Tudo é uma guerra que o vencedor conta a história.

- Não é verdade. A justiça é como a direção de um vento, é como a gravidade. É única e verdadeira, não tem lado, não tem desvio e é incorruptível, somente essa é a justiça verdadeira. – dizia Saga repetindo seus ensinamentos.

- E que justiça há em um irmão matar o outro? Que justiça há em um homem e uma mulher que se amam não poderem ficar juntos? Que justiça é essa que não permite um pai cuidar de sua filha?

Aquilo era monstruoso para Saga, ouvi-lo dizer tudo aquilo, mas não na voz de seu irmão, e sim na sua voz. Uma justificativa para ele aceitar se corromper por uma boa causa, a sua causa. Quem melhor que ele para educar Athena, educar sua própria filha? Mas essa era uma decisão que não cabia a ele, e o cavaleiro de Gêmeos não iria ceder.

- Saga! Saga!

Seu nome era chamado, trazendo-o de volta daquele embate. Viu-se parado sem mover um músculo, por um momento que durou uma eternidade, sua voz não era chamada pela sua própria, mas sim por Alana, a sacerdotisa que possuía a próxima reencarnação de Athena no ventre. A única mulher que com uma palavra podia trazer a realidade.

- Alana? O que faz aqui? – Saga via a mulher que tanto amava grávida correndo para os seus braços sem sua guarda pessoal de cinco cavaleiros de prata, sem o Grande Mestre e sem o futuro Grande Mestre Aioros.

A sacerdotisa apenas corria em sua direção, abraçando seu amado com a armadura, que era feita para resistir ao mais poderoso golpes, resistindo por eras. Era impotente perto de um abraço da pessoa amada. Alana, apesar de ser dois anos mais velha que Saga, era uma flor perto do cavaleiro de ouro da casa Gêmeos.

- Fiquei preocupada, não o vi no salão cerimonial. Não sabe o quanto você me assustou! – A preocupação da sacerdotisa dos cabelos violeta era genuína, o amor que ela nutria pelo cavaleiro era de maneira tão grandiosa que o desarmava contra qualquer ação que ele visse que a negasse.

Abraçada e aconchegada em seu peitoral, Saga tentava abraçá-la com cuidado para que a intensidade de seu abraço não a ferisse. Ao mesmo tempo sentia o corpo mole, rendido àquele ato de carinho. Não queria fazer nada há não ser retribuí-lo.

- Mesmo assim, meu amor, você não pode estar aqui. – dizia Saga. - É perigoso...

- Jagga está me protegendo, e Maya esta de prontidão para avisar qualquer coisa. – Sua amada olhava para seus olhos apenas saindo o mínimo de seu abraço para olhá-los. – Acho que temos problemas maiores que esse...

-Sim. - Concordava com ela, com sério pesar. – Mas não sei como rever essa situação, fui o melhor que pude, tentei ser o melhor para o Santuário, mas foi em vão como você pode ver.

-Talvez seja o melhor, apenas fomos instrumentos de Athena. – Sorria Alana conformada. – Eu serei a santa que Athena escolheu para vir a Terra e você será o guardião da casa de Gêmeos. Talvez seja aonde podemos chegar graças aos planos divinos que eles reservaram para nós.

-NÃO! VOCÊ NÃO PODE DEIXAR SUA FILHA E SUA MULHER DESPROTEGIDAS. SEM TOCÁ-LAS, AMA-LAS E PROTEGE-LAS. É O SEU DEVER COMO SER HUMANO. ESQUEÇA QUE É UM CAVALEIRO, SEJA HUMANO! – A voz que Saga ouvira e discutia em sua cabeça, que também era a sua, gritava em desespero. Parecia chorar. Seja quem fosse ele também amava sua filha e Alana, e ao contrario dele mesmo, ele expressava e se desesperava, luxo o qual ele próprio não se dava.

-Sim. – Saga assentia reabraçando-a. – Pode ser o plano divino, mas eu sempre as protegerei, custe o que custar.

O casal se beijava com força como se aquele fosse o último. A voz entendia a mensagem.

Saga seria humano...


******


Nos picos de Rozan, estava Mu ajoelhado perante o velho ancião da China que em sua concepção era o segundo no comando da Resistência Aioros. Ainda sim, era estranho demais um cavaleiro de ouro da casa de Áries ajoelhado diante de uma figura de aparência tão deplorável, mas Mu e Shunrey sabiam que o Mestre Ancião era mais que sua aparência, era sua experiência e sabedoria. Especulações sobre sua estada ali são diversas, mas ele mesmo nunca dizia, ela apenas rezava vendo o passar das eras.

- Os cavaleiros de bronze de Pegasus, Dragão, Cisne e Andrômeda estão protegendo Athena. Garan, o servo da casa de Leão está também no Japão, e deixei meus dois discípulos: Shiryu e Kiki, como suporte. – Mu era quase um militar se reportando para com o antigo cavaleiro de Libra.

- Sinto uma magoa em você jovem Mu de Áries. Como se tivesse perdido uma vida nesse meio de caminho. – dizia Dohko.

- Sim, mestre. - Mu se choca, ainda estava sentido com a morte da amazona de Fênix. Culpava-se por não conseguir salvá-la de Shaka de Virgem. A única que não estava nessa guerra, que estava em uma guerra pessoal e que foi convertida por Athena sem saber que era a Deusa que ela foi destinada a proteger. – Tentei salvar uma amazona de bronze, mas ela foi morta por Shaka. Eu não entendo, já que Shaka é o mais próximo de nós dos deuses, o cavaleiro mais poderoso, e ainda cai na rede de intrigas que é o Santuário.

- Não se abale, Mu. – dizia Dohko em uma sabedoria pausada. – Shaka ainda é uma criança, ele busca iluminação porque talvez seja o mais perdido de nós. Shaka fechou os olhos para tudo no mundo, fechou a alma para as pessoas para entender melhor o mundo, porém ele se esqueceu que o mundo não é feito de deuses, mas sim de pessoas. Ele pode ser o mais próximo dos deuses, mas ainda é um humano. Athena prega que a compreensão deve vir de compaixão, não por lógica ou equilíbrio. Athena prega a proteção e não a guerra pura e simples. Athena não quer isolacionismo, mas sim o acolhimento, se fosse ao contrario, porque reencarnar?

- Mesmo assim, mestre. É injusto! – Mu por mais racional que fosse era ainda um ser vivo com sentimentos que o regiam.

- Por isso que existimos, todos nós temos uma função de corrigir as injustiças, algumas coisas nunca mudariam. Veja Aioros, um dos cavaleiros mais valorosos de Athena e o que ele teve como recompensa? Uma família morta, um irmão que lhe odeia e que largou mão de todos os seus ideais e de seu nome sujo com o mais vil dos traidores. – dizia o cavaleiro de Libra. – E não acho que seria diferente em qualquer outra situação, a pior das hipóteses seria não existir a “resistência Aioros” para lutar contra essa teia de mentiras. Veja o verdadeiro líder da “Resistência Aioros”, ele é o maior injustiçado.

- Injustiçado?! Acho que ele é um manipulador andando para o lado que mais lhe é conveniente. – Mu se arrependia de suas palavras. – Desculpe, mestre. Não sou ninguém para julgá-lo.

- Relaxe, você ainda é jovem e ainda guarda muita mágoa dele. – dizia Dohko com uma risada leve e senil. – Mas ele quem começou a revolução, ele é o líder, mesmo que não possa fazer muita coisa morto. Como eu disse, todos temos uma missão de vida, a dele é que nem a do Aioros que conhecemos. Ser o Mal necessário.

De repente, Dohko abaixa a cabeça, em um momento de tristeza mórbida que nem mesmo Mu consegue decifrar.

- E mais sacrifícios foram feitos... – Dohko sente a partida dos cosmos dos cavaleiros da Coroa Boreal e de Cefeus.

******

Marin, a amazona de Águia, gritava mais uma vez, com esse era o oitavo grito da noite. Seu oitavo pesadelo. Asterion de Cães de Caça lançava uma sugestão de pesadelo para cada vez mais malear a mente da amazona de prata que era um escudo impenetrável, não conseguia decifrar a mente dela, não conseguia saber de nada além do que ele já sabia.

Estavam na praia, sentada na areia, enquanto Asterion estava sem as pupilas dos olhos. Tentando adentrar a mente de Marin, e Moses, o cavaleiro de prata de Baleia, estava entediado olhando o mar, a única coisa que lhe acalmava, pelo menos naquele momento.

Asterion pela oitava vez saía do transe, deixando cair a oitava lágrima de sangue. Um efeito colateral de seu dom quando não consegue o que quer.

- Larga de mão, Asterion. Vamos mandar essa vaca para o Santuário. Aposto que o Grande Mestre vai adorar essa traidora. – Moses era um homem rústico e de ação, odiava qualquer trabalho que não fosse combate, pelo menos enquanto cumpria sua função como cavaleiro. Ele já era um veterano de guerra, tudo que queria ou era uma guerra aberta ou paz.

- Sabe que eu não consigo. – Por mais que tentasse, Asterion não conseguia parar com algo incompleto. Ele sempre queria mais, queria fazer além do seu serviço. – Quero descobrir o que Marin tanto esconde, mas acho que não vamos conseguir assim, precisamos de algo mais; mas o quê?

- Ela não tinha um irmão? Acho que era o cavaleiro de Pegasus! –dizia Moses.

- E Pegasus está vivo... – Asterion iria cumprir mais que sua missão novamente.

*****

No Santuário, o Grande Mestre estava ansioso. Cada segundo que se passava era angustiante para Ares, todo aquele tempo de espera. A equipe que ele mandara para o Japão para esconder as evidências e vigiar Shaka, não havia reportado o relatório. Havia mandado também dois cavaleiros de prata, Misty de Lagarto e Babel de Centauro, para eliminar os cavaleiros de bronze e Athena, que ainda não haviam retornado.

- Você não vai conseguir, Ares. Eles estão certos, Athena está do lado deles, e você está confuso. Como você pensa ser o “novo deus do mundo” ao lado da deusa da discórdia?

- CALE A BOCA!!! – Gritava Ares em mais um de seus surtos esquizofrênicos.

¬- Você sabe que vai perder, não há chance de você existir sem a Eris. E Athena vai vencer. Ela tem a Vitória ao seu lado.

- Errado, Saga. – Dizia Ares em mais um diálogo \ monólogo. – Ninguém sabe onde Vitória está…

- Ela sempre estará ao lado direito de Athena. É o lugar dela, e ela sempre estará lá!

Eris\Athena entrava no recinto, a mente de Saga se esvaia e Ares saía de seus transe, acordando de maneira assustada via a doce menina loira que era a reencarnação da deusa da discórdia. Ares realmente não sabia o que era pior: ser assombrado por Saga ou ser manipulado por uma garota que é a reencarnação do mal?

- O que foi, meu escolhido? Ainda o seu “antigo eu” lhe incomodando? – A voz de Eris era inebriante, era aconchegante, era boa demais para ser verdade. Era difícil não aceitar aquela voz lhe manipulando, mas por isso que ele era o “seu escolhido”.

- Nada, minha jovem deusa. Apenas aflições contínuas que logo serão estripadas. – Ares evitava que Eris dominasse sua mente sibilando suas mentiras. O grande problema de ouvir o que Eris dizia era perder sua própria vontade. Era só observar o Santuário, todos ajoelhados perante a um falso Grande Mestre e a uma Falsa Deusa.

- Não se preocupe, vou logo acender ao status de deusa. Basta nossa querida “Athena” morrer, e imediatamente eu me fortalecerei, me tornando a nova deusa desse mundo. – Eris abria a enorme cortina cerimonial deixando o sol entrar. – Logo, não precisamos mais se esconder.

-“Quando uma mentira se torna realidade, o mundo será o errado” – Sussurrava Saga pelos lábios de Ares.

- Disse algo? – Indagava Eris.

- Nada. – Ares escondia a verdade.

*****

Okko estava ainda sentindo a costela e o braço esquerdo reclamando, porém graças ao treinamento de cavaleiro, seu corpo se recuperava bem. Estava habituado a quase morrer e melhorar repentinamente. Tirando Pandora, ele era o melhor da equipe. Thouma mal conseguia respirar sem dor, foi lhe dado uma cadeira de rodas para que se locomovesse que era empurrada pela doce Mihu. Isaak estava entre a vida e a morte, sempre agonizante, pois seu sangue contaminado estava sendo expulso de seu corpo, e Pandora não saia de seu lado, sempre com uma toalha umedecida cuidando de Isaak.

Alguém quase nas mesmas condições de Isaak era Shiryu. O jovem cego cuspia sangue, apertava o coração tentando fazer ele não explodir, pois era isso que ele sentia. Kiki apenas rezava pelo seu irmão de treinamento sofrendo com seu karma e orava para quem quer que fosse para que ele não morresse, descia para a reunião deixando os dois cavaleiros abatidos nos cuidados da amazona sobrevivente, enquanto Garan cuidava para que o coração do cavaleiro voltasse a sua ritmia normal, sincronizando o seu cosmo com o de seu paciente. Shun, por sua vez, estava sentado no hall de entrada com Hana.

- Está bem mesmo, minha amiga? – Shun apesar de um rosto jovem, exalava segurança e um ombro amigo. Uma segurança indescritível para Hana que estava abalada no momento.

- Realmente não sei. – Hana sentada com um vestido branco pertencido a mãe de Shun, estava quase em posição fetal, com os lábios tremidos e olhos mareados. – Dizem que sou uma deusa, pessoas morreram. Pessoas morreram por minha causa.

Hana desabava em um choro de desespero. Não havia divindade naquilo, aquele choro era tão humano quanto qualquer um. A jovem não entendia porque a necessidade deles se matarem, de se sacrificarem por ela. Shun abraçava a jovem das flores, a família Harusuki e a família Amanya sempre foram amigas, e Shun e Hana sempre foram como irmãos.

- Hana, ao que parece você é uma deusa de paz e proteção. Você é uma guia, talvez você seja a única que possa parar isso. – Shun colocava Hana contra o peito alisando seus cabelos púrpuras, como sempre fazia para acalmar sua amiga.

- Eu? Uma deusa de paz e proteção? Eu não consigo sequer me proteger, o que dirá ser uma deusa de proteção! – Hana tentava conter o choro, era desesperador para ela saber que pessoas morriam por sua causa.

- Vai ver que por isso que essas pessoas existem. Para que você possa se importar com o mundo e esses “cavaleiros” se importarem com você. – Shun fala isso com uma convicção impressionante.

- Mestre Amamiya esta certo, jovem Hana. – dizia Garan que descia pelas escadas com Thouma em uma cadeira de rodas, Okko com o braço ferido e sendo apoiado por Mihu e Kiki. Pandora não descera, pois estava cuidando das feridas de Isaak e Shiryu.

O servo da casa de Leão deixava Thouma próximo ao sofá sendo amparado por Mihu, enquanto Okko sentava-se em outro sofá e Kiki saia da cozinha comendo diversas frutas encontradas na dispensa encostando-se em uma parede devorando uma maça. Garan era o único em pé, em uma imponência que mesmo tendo no lugar do braço esquerdo uma peça metálica e não possuindo um olho, que era tomado por uma grossa cicatriz, como um líder era completo.

- Deixe-me explicar o que realmente se passa, Athena. – Garan começava a falar até ser interrompido por quem ele achava que era a sua deusa.

- Não sou essa Athena, me chame de Hana.

- Perdão, sei que estamos forçando você a esse título, mas você não sabe o quanto você é necessária. – Garan deixa a voz de professor estremecer um pouco com a emoção de encontrar a verdadeira Athena. – Deixe-me explicar o porquê de todos nós estarmos dispostos a dar nossas vidas por você.

- Me forçando? – Hana levantava, exaltada, não querendo e nem assimilando muito bem aquelas informações. - Vocês me outorgaram a um título que eu não sou e nem quero ser, sou uma órfã, adotada por um casal de japonês. Não sou nenhuma reencarnação de uma deusa pagã destinada a proteger o mundo, sou apenas uma estudante de letras. Só!

Hana caía e chorava novamente.

- Vocês são pessoas com suas vidas, seus sonhos, suas esperanças. Vivam elas. – Hana caía no sofá, nos braços de Shun, que como um pai consolava uma filha.

- Nossas vidas são devotadas a você, jovem Athe... – Garan se consertava. – Jovem Hana, a diferença de nós e você é que sempre soubemos que estávamos destinados a isso. Fomos forjados para esse momento, para servi-la. – Era complicando para Garan explicar a complexidade de ser um cavaleiro de Athena, você ser destinado, querendo ou não. Alguns até hoje caiam em contradição até hoje. – Veja a amazona de Fênix que se sacrificou em seu nome, deu a sua vida para protegê-la, mesmo nem se considerando uma amazona de Athena.

- EU NÃO SOU ATHENA!!! - gritava Hana. – SOU HANA HARUSUKI!!!

- Eu sei que você é Hana, mas você também é Athena. Aioros se sacrificou para que você pudesse sobreviver, não porque você era Athena, mas sim porque você era uma criança. – Garan parecia se tornar um pouco mais sofrido com suas palavras. – Ele faria isso por qualquer criança. E a prova que você é Athena, é que você está com a armadura de Sagitário. A herança de Aioros para a sua deusa-menina, ele sacrificou tudo, sua vida, seu amor, sua honra, em nome de Athena. Por isso que nos intitulamos a “resistência Aioros”, ele é o maior de nossos mártires.

- Então, explique porque vocês acham que ela é Athena? – indagava Mihu, a melhor amiga de Hana, que empurrava a cadeira de Pegasus.

- Aioros deteve um plano maligno que visava o assassinato da reencarnação de Athena e trocá-la por outra criança. Sabendo o assassino iria tomar o lugar do Grande Mestre do Santuário, sendo o porta-voz de Athena. Ele fugiu com Athena para fora do Santuário. Foi caçado sem misericórdia, e todos que os caçaram acreditavam que ele tentou matar Athena. Pensaram que o plano que estava ocorrendo era o de Aioros, mas não era. – Garan lacrimejava e tremia ao contar a história. – Aioros era o símbolo de humanidade e de honra no Santuário de Athena.

- E esse santuário? O que pode fazer contra o governo do mundo inteiro? – Shun era metódico, mas era um fato. Vários exércitos contra quatro dúzias de pessoas?

- Muita coisa. Um cavaleiro de bronze tem o poder de derrubar um país com uma milícia bem-preparada, um cavaleiro de prata tem o poder de desafiar um país bem-preparado militarmente e um cavaleiro de ouro é tão poderoso que só um pensamento dele é equivalente a um cavaleiro de bronze. Todo esse poder ligado a toda devoção que os cavaleiros têm para com o Santuário e para com Athena em mãos erradas é catastrófico, mas graças a nós, a Resistência Aioros, a situação não está pior. Estamos causando uma guerra interna no Santuário contra o falso Grande Mestre com sua falsa deusa. Nem tínhamos mais esperança de encontrá-la, até que o cavaleiro de ouro de escorpião informou no Santuário que encontrara a armadura de Sagitário. – Garan respirava fundo ao contar bem resumida a história, mas sem omitir nenhum detalhe importante.

A história parecia um absurdo, parecia um conto de fadas ou no mínimo uma história ruim, mas explicava muita coisa. Explicava até mesmo aquela conversa, explicava as pessoas que tentavam matá-la. Até mesmo Mihu e Shun, que não tinham relação com os cavaleiros e nada daquilo, acreditavam naquela história. Hana estava chocada demais e chorava.

- Já disse, não quero ser deusa, não quero que mais mal seja causado; quero só que as pessoas sejam felizes, que tenham suas vidas, quero só paz. – dizia Hana ainda chorando nos braços de seu irmão de consideração.

- Isso é o mesmo de dizer que somos tolos que sacrificam suas vidas por uma ilusão. – dizia Garan se abaixando para olhar Hana nos olhos. – E nós queremos ser esses tolos. Queremos. Fomos talhados para essa tolice e escolhido pelas estrelas para essa tolice. Queremos apenas a paz e a sua felicidade. Todos nós nascemos para lhe adorar, e não sei quanto aos outros, mas o que me contaram era verdade. Você deve ser a pessoa mais bondosa desse mundo.

Hana olhava para todos os outros presentes na reunião, e todos confirmavam, fosse com um aceno, um sorriso ou mesmo um simples olhar. Aquilo emocionava Hana, pensando que eles estavam enganados, mas que não podia decepcioná-los...

*****

Pandora sabia que, taticamente para sua missão, deveria estar na reunião. Na verdade ela deveria ter matado Hana quando teve chance, no entanto se via cuidando dos cavaleiros de Athena abatidos. Era mais natural para ela que havia nascido para ser uma sacerdotisa e não uma guerreira, porém não uma sacerdotisa de cura e sim uma clériga da morte, servindo como porta-voz para Hades.

Ainda não sabia por que possuía tanto cuidado para com o cavaleiro de cisne, nem o porquê de se colocar na frente dele, sendo que havia sentido hostilidade em relação a ele. Pensava que poderia ser pela Morte Negra, o golpe que mesmo que seu usuário morresse lhe garantiria uma companhia para o Tártaro. Havia algo nele que Pandora não sabia realmente o que era, mas que lhe chamava atenção.

Pandora tirava a máscara e revelava seus olhos de cor violeta, a mesma que impermeava sua armadura de Andrômeda. Aquela máscara lhe sufocava, não por ser uma máscara, pois o objeto era claro e se modelava com seu rosto, mas por sentir que com aquela máscara todos sabiam que ela tinha algo a esconder. Albior de Cefeus sabia... Albior era sábio e inteligente, não fazia ainda sentido que ele a mandasse para “proteger” Athena. Logo ela. Ele simplesmente poderia não ter mandado ninguém, Heda, Spika e June tinham mais lealdade em um fio de cabelo do que ela mesma em toda a sua existência. Seria ela apenas um mero joguete dos Deuses-Gêmeos?

- Ei, você. – Pandora se assusta. - Se não estiver muito perdida em seus pensamentos, poderia pegar um pouco d’água para mim?

Pandora percebe que era o outro paciente, o jovem com cabelos longos trazido pelo jovem Lemuriano, quase a beira da morte. Estava de olhos abertos, olhando diretamente para ela, apesar de ainda deitado em uma péssima posição.

- Melhor colocar sua máscara. Uma amazona não deveria tirá-la.

Desesperada, a falsa amazona pega a máscara com certo desespero e a coloca rudemente no rosto, tanto que a deixa cair. A cena era acompanhada por um riso do cavaleiro que acabava de acordar. O que ela não compreendia.

- Do que está rindo? Terei que lhe matar se ver o meu rosto. – dizia Pandora evocando uma tradição.

- Por que eu sou a regra a sua exceção. – ria Shiryu leve e divertidamente. – Sou cego, sou a pessoa que você menos deve se preocupar em ver seu rosto.

Pandora notara que ele realmente olhava fixamente para o vazio e não diretamente para ela, mas por via das duvidas ela ainda colocou a máscara.

- Posso apenas imaginar com as informações dos outros sentidos, além de confiar certamente no meu sétimo sentido. Aprender a ver claramente o fluxo de cosmo de uma pessoa. – dizia o cavaleiro consciente e com o dorso nu.

- Eu tenho essa capacidade, mas só sinto como um arrepio. – dizia Pandora.

- Ela substitui a minha visão, é como se eu visse tudo contra uma luz. Admito que estou privado dos detalhes, mas ainda sim consigo viver e ser um cavaleiro. – Shiryu dizia isso com orgulho e não com a esperada angustia. – E o cavaleiro de Cisne? Como está?

- Mal. – Pandora respirava fundo como se o que ela iria dizer fosse uma fraqueza dela. – Foi acertado pela morte negra. Agora está sangrando e beirando a morte.

- Então não há nada que possamos fazer, só esperar que ele não atravesse a porta que divide o mundo dos vivos e dos mortos. – O cavaleiro sem armadura recitava a frase como cotidiana. – Também vivo nesse estado.

-Como assim?

- Tenho um sério problema cardíaco, toda vez que elevo meu cosmo demais meu coração não suporta, posso viver muito bem sem ser um cavaleiro, mas assim a vida não seria completa. Você deve me entender.

- Sim. – Não. A amazona não entendia, se ele podia viver como uma pessoa normal não fazia sentido ele ser um cavaleiro. Ela mesma queria ser uma pessoa normal. Era impossível aceitar que alguém havia escolhido essa vida por vontade própria.

Pandora se via humana demais, lembrava da luta contra o Andrômeda Negro. Os deuses-gêmeos possuíram sua mente e seu corpo. Tinha que afastar sua própria humanidade de si mesma...

*****

Avezzano, vila da Itália. Seis anos atrás...

O jovem cavaleiro de ouro da casa de Câncer olhava a devastação de uma pequena cidade e chorava sobre um cadáver. Tudo era destruição, ainda com as cinzas quentes, cadáveres recentes. Sabia de quem era obra, do homem que lhe treinou, que lhe deu seus poderes e técnicas. Era discípulo de um monstro. Giovani achava que era capaz de quebrar o ciclo de violência, mas viu que ele mesmo era parte desse ciclo sendo que o corpo que ele carregava no colo era de Alessa, sua noiva.

Tudo por causa de uma omissão, por causa de esperança das pessoas serem boas e puras em essência, se enganara profundamente. Sua terra amada, sua mulher, sua honra, seu orgulho, morto e queimando em cinzas. Podia sentir o cosmo daquela cria do inferno com o poder de incinerar tudo que é vivo. Seu toque só trazia destruição e seus ensinamentos eram uma enfermidade para o mundo. Esse era Nabal, o Demônio dos Demônios, como era conhecido entre seu povo: os Lemurianos.

Deixava o corpo de sua amada, iria vingar-se de tudo que ele causou de desgraças para esse mundo, inclusive a ofensa de ter nascido. As suas lágrimas se tornavam espíritos de um resto de humanidade de Giovani que morria naquele momento assim como tudo que ele amou. Caminhava para vingar a morte de Giovani, pois a partir de agora ele seria Máscara da Morte.

Nabal havia concluído o treinamento de seu discípulo e o esperava ansiosamente...

Alma Nova 11 – Choros de Tempestade.

No Último Capitulo...


As lutas começaram, Kiki e Shiryu lutam por suas vidas contra os cavaleiros de prata Babel de Centauro e Misty de Lagarto. Enquanto isso, os cavaleiros de bronze continuam desaparecidos e Marin em sérios apuros, depois de ter sido descoberta. E ainda com os cavaleiros de ouro cumprindo ordens de aniquilar a Resistência Aioros.


As lutas começaram, o Santuário começa a atacar às cegas, mas acertam em alguns alvos. Quem irá prevalecer? A Resistência Aioros ou os cavaleiros do Santuário manipulados pela falsa deusa Athena?


Não perca mais um capítulo de Alma Nova...



-Não acredito que você se tornou um cavaleiro de Peixes, estou muito orgulhosa de você! – dizia a garota com seus vinte anos, de cabelos beirando ao branco, mas com uma suavidade de verde-água quando tem batido luzes solares sobre si. Naquele dia que era o maior de todo ano, naquela terra fria e congelada da Groelândia.

Era ela bela, muito bela. Uma beleza conseguida apenas por aqueles que possuem esse dom na família e muita sorte. Ela realmente tinha orgulho de seu irmão, ele treinara e lutara por aquela armadura que era tão bela. Tão bela que talvez ofuscasse toda a sua beleza.

-Que é isso, mana. Sabe que me esforcei o suficiente para conquistar a armadura, e com uma rival como você, escolhida também para suceder a armadura de peixes. Foi páreo duro. –Dizia o cavaleiro de peixes que era maior que sua irmã, ofuscado pelo sol fraco daquela terra, reluzindo a ouro. –Mas foi bom você não ter conseguido a armadura. Não gostaria de ver sua beleza maculada por tanta maldade e crueldade da vida de um cavaleiro de Athena...

******

No quarto das crianças no orfanato Filhos das Estrelas estavam desmaiados os cavaleiros de bronze Thouma, Okko e Isaak, desmaiados em cima de camas, e Pandora estava consciente cuidando dos seus companheiros enquanto Hana estava encolhida em um canto do quarto e chorava copiosamente. Tantas pessoas já haviam morrido por causa dela, e agora uma criança lutava para protegê-los, Hana amava as crianças do orfanato e nunca iria colocar uma delas para lhe proteger. Era mais provável que ela morresse no lugar dela, e ela até tentou, mas levou um tapa de Pandora que se martirizava agora por bater no rosto de uma Deusa.

Porém Pandora não sabia muito bem o que fazer com a cabeça tão confusa, se martirizava por bater em uma deusa que nem ao menos tinha sua devoção. Tinha a missão de protegê-la, mas porque simplesmente não a deixara sair para morrer pelas mãos de seu próprio cavaleiro? Ela se auto convencera que estava fingindo que queria sua proteção, mas o fingimento era real demais. Tinha que lembrar que era monitorada mentalmente pelos deuses gêmeos da morte e do sono. E a imagem do rosto do diretor do orfanato lembrava instintivamente a Hades...

E o pior de tudo isso, entre as suas questões e indecisões de escala divina, parecia ocupar sua mente mais do que seus pensamentos era o cavaleiro de cisne, que tinha manchas negras como o ébano. Ele se debatia, estava em uma febre assustadora e ainda gritava algo sobre seu mestre e uma mulher chamada Mikkeli. Isso lhe deixava nervosa, com a força e intensidade que ele gritava. Ela sabia que aquilo era a conhecida “Morte Negra”, uma praga que devora o corpo, alma e cosmo. Tentava lembrar como era a cura, mas não lembrava devido a sua mente confusa.

Enquanto isso, Hana só pensava em como se metera naquele turbilhão de coisas, sendo atacada por aquele cavaleiro de negro. Ou mesmo quando aquele homem de cabelos cacheados azulados havia lhe encontrado, mas ao que parece era tudo por causa dela e daquela urna dourada que estava a sua frente. Achava-se uma idiota por deixar logo “aquilo” no orfanato, atraindo esses seres sobrenaturais chamados “cavaleiros de Athena”. Achava que Shun iria lhe culpar para sempre, achava que as crianças podiam morrer com aquela idiotice que fizera, ela mesma achava que era melhor ela ter morrido para aquele cavaleiro negro. Ela fazia tudo, menos se preocupar consigo mesmo.

Nenhuma das duas queria ver o que acontecia do lado de fora, Hana só queria que aquilo parasse, Pandora sabia que o melhor era olhar para o caso daquele aprendiz fosse derrotado, mas não conseguia se concentrar devido ao turbilhão de pensamentos e indagações que passavam por sua mente.

Eis que ambas repararam que o barulho havia acabado e as luzes vermelhas não apareciam mais como um reflexo na parede. A luta estava terminada e passos vinham em direção do quarto. Pandora puxava Hana com uma força que ela não parecia ter, e já preparava para atacar.

A maçaneta começava a girar e a porta a ranger, abrindo rapidamente...

Era Shun, e ambas respiraram aliviadas, mas com ele estava um homem gigantesco, com cabelos loiros e curtos e com um dos olhos que não abria por causa de uma cicatriz enorme e grossa. Estava com um sobretudo marrom, e roupas esportivas, como qualquer pessoa do mundo.

-Er... Este é... Amigo do Mu... – Hana não fazia idéia quem era e nem Pandora, mas só no anuncio do nome de Mu, já lhe arrepiara. De acordo com seu mestre, Mu era o mestre de Jamiel, e ainda o verdadeiro coordenador da resistência Aioros. Agora fazia sentido quem os salvou.

-Olá, sou Garan. Um servo da casa de Leão. –Shun estava assustado, pois ele viu o que aconteceu com o aquele cavaleiro que manipulava as chamas, tivera um rombo feito no meio do peito, e apenas caiu, sem ao menos saber o que lhe havia atingido. Eram monstros em forma humana.

Garan ia imediatamente em direção a Isaak, chegava a ponto de derrubar Pandora sem o mínimo de cuidado, e atravessa Hana sem ao menos encostá-la. Pandora se levanta pronta para agredi-lo, e via que olhava para Isaak com olhos de curandeiro, não. Eram mais precisos como os de um cirurgião.

-É a morte negra. –Pandora dizia seu diagnostico para adiantar a cura de Isaak.

-Eu sei... –Garan teve um olhar de desprezo. – Isso é obvio, e para isso só há uma solução...

A mão esquerda é erguida e revela uma manopla de metal equivalente a uma mão humana, porém não havia espaço para uma mão, apenas se ela fosse atrofiada, era como uma mão biônica que não se movesse por energia elétrica, mas sim por cosmo. Mas o mais chocante ainda era que aquele misterioso homem estava prestes a atacar Isaak com um golpe com dois dedos direto, e era possível também ver o cosmo fluir para sua mão concentrando nas pontas dos seus dedos.

Imediatamente uma explosão de velocidade, e enquanto a mão de Garan descia, Pandora agarrava seu pulso. Era possível ouvir o metal ranger com a pressão que ela exercia, impedindo o golpe de misericórdia. Garan estava surpreso pelo potencial daquela garota, que exalava um cosmo púrpuro. Perguntava-se se ela era mesmo um cavaleiro de bronze, e ao reparar no paciente, aquela que todos estavam achando que era Athena estava debruçada sobre o corpo do cavaleiro de Cisne.

-Não vou ver ninguém mais dos meus amigos morrendo. –Hana dizia sem olhar para Garan, com uma voz trêmula e lacrimejante, mas cheia de coragem e determinação.

-Essa não é a solução para a Morte Negra, eu sei que tem uma cura. –Pandora deixava seu cosmo púrpuro fluir até mesmo nos seus olhos de uma maneira intimidadora.

-Essa é a única... –Garan olhava diretamente aos olhos intimidadores da amazona de Pandora. -... Maneira de curá-lo. Tenho que abrir os pontos cósmicos para que com isso a “Morte Negra” saia junto com o sangue, é uma medida arriscada, mas no grau que ele esta, qualquer coisa é arriscada.

Era verdade, Pandora lembrava agora da cura citada pelo seu mestre, Albior. Lembrava que a Morte Negra deveria ser tratada o mais rápido possível. Ela vem com um golpe geralmente e não é sentida no momento, apenas se encubava acumulando os danos para atingir o corpo certeiramente, agravando ainda mais seu estado.

Pandora larga o braço metálico de Garan, e tira levemente Hana de cima do corpo de Isaak, dizendo à Hana que estava tudo bem, que era melhor ajudarem Shun e Kiki. Tudo que queria era poupar a visão de Hana do que iria acontecer. Fecha a porta e tira a reencarnação de Athena do quarto.

No saguão da sala, Shun estava no sofá, com a cabeça baixa, segurando levemente os cabelos. Como se algo o preocupasse, ou seja, tudo que ocorrera. Ouvia passos, era Hana sendo segurada por Pandora pelos ombros, que saia para os braços do diretor, chorando e pedindo mil perdões por colocar ele e as crianças em perigo, em uma cacofonia lamuriosa.

Shun a acalmava com todas as suas palavras de conforto para não dizer que a culpa era dela. Shun sabia que ela era a maior vítima daquela situação. Qualquer outro em seu lugar estaria a culpando, mesmo que guardasse dentro de si, mas não Shun. Ele acreditava que o mundo era um lugar bom, cheio de pessoas boas, que no máximo as pessoas sobreviviam, e que sua essência é bondosa. Talvez Shun fosse a pessoa mais bondosa do mundo e talvez realmente fosse.

Pandora apenas ficava parada em seu mar de dúvidas e devaneios, por trás daquela máscara que a sufocava. Perguntava-se o porquê de se preocupar mais com o cavaleiro de Cisne do que com sua missão, seja de proteger Athena ou mesmo para com os deuses que manipulam suas cordas. Até que a porta abre abruptamente, revelando o jovem lemuriano carregando e arrastando um homem totalmente ferido...

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Heda e Spika estavam inconscientes já, apenas June mantinha a consciência de maneira muito turva. Ela não conseguia acreditar, era inconcebível em sua mente aquele homem que estava a sua frente. Seu corpo e o dos outros guerreiros da ilha de Andrômeda não reagiam, seus cosmos haviam queimado há um nível perigoso, no qual suas vidas poderiam se esvair. Mesmo com suas armaduras, elas eram apenas pesos naquele momento, junto com as armas que vinham nela, que era inútil. E aquele monstro em forma de gente nem ao menos descruzou os braços.

O cavaleiro de ouro não se movera um momento sequer, mas seus golpes vinham, não era psiquismo, não era nem ao mesmo um golpe de energia. Era possível sentir o punho do imenso adversário em seus corpos, rompendo sua pele e lesionando seus órgãos internos. E isso sem se mover, talvez apenas querendo que eles morressem, eles morreriam. Os cavaleiros de ouro não faziam jus a sua fama, eles eram muito mais fortes ainda. Mesmo os cavaleiros de bronze eram muito acima dos humanos normais, mas nem eram o poder de um dedo de um cavaleiro de ouro. O terror nos ossos da amazona era evidente e decepcionante para qualquer um que tivesse o mínimo de amor-próprio.

E era pior do que June imaginava, pois Aldebaran nem havia usado sua força total, apenas o que ele chamava de “força contenção”, a força do touro dourado era absurda, assim como de todos os outros dourados. Aldebaran ao ver todos os jovens caídos imóveis, começa a andar lentamente, olhando a paisagem bela e letal. Esperava lutar logo com o cavaleiro de prata rebelde, de acordo com a fama do tal cavaleiro, não esperava que ele fosse se esconder atrás de seus valorosos discípulos, mesmo com sua imensa compreensão Aldebaran já estava repensando sua missão.

Anda aos poucos para dentro da ilha, observando tudo atentamente, e via que aquele lugar lembrava o Santuário Grego, porém mais afiado e menos clássico. Seguia o cosmo de seu oponente que estava do outro lado da ilha.

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Milo estava aos pés de sua escadaria, sentado e riscando um dos degraus com sua unha. Desenhava aleatoriamente, em um mínimo que era considerado vandalismo e um ato indigno para um cavaleiro de ouro, mas tamanhos eram os danos causados a cada dia a qualquer placa de mármore do Santuário apenas por citarem o antigo cavaleiro de Sagitário, ou mesmo quem era o antigo Grande Mestre.

E tudo parecia piorar, e cada vez mais desde que Athena nasceu. As poucas vezes que estivera no Santuário durante sua fase de treinamento e a cerimônia para adquirir sua armadura tudo parecia piorar, os treinamentos, as gerações de cavaleiros que pareciam ter seus cosmos cada vez mais enegrecidos, parecendo mais máquinas que eram assassinas e apenas cumpriam ordens.

O cavaleiro de escorpião não achava aquilo certo. Acha que cavaleiros deveriam ser mais humanos que os próprios humanos para protegê-los. Cavaleiros tinham que trazer luz, e não somente fazer “limpeza” das trevas. Parecia que o marco dessa “Idade das Trevas” foi com a morte de Aioros e não com sua suposta traição. Afinal, já se passaram mais de 15 anos que aquilo acontecera... E só daí, que os “rebeldes” começaram a aparecer.

E ele sempre pensava em Hana, na armadura de Sagitário e de como os cavaleiros de ouro começavam a esvaziar suas casas desde que ele relatara ao Grande Mestre Ares sobre a existência da armadura e de sua “guardiã”. Será que...

-Já chega disso. –a voz grave e raivosa passiva de um leão prestes a atacar. –Afinal, de contas o que você é?!

-Como assim?! -Milo estava surpreso, não reparara a presença de Aioria. E pela voz ele estava o seguindo há muito tempo.

-Você é ou não é um traidor?! Se for, vou matá-lo aqui e agora! –Nunca viu Aioria tão raivoso. –Vamos! Diga!

-Ficou louco? –Milo não sabia de nada que estava acontecendo, e muito menos queria lutar. –De onde você tirou isso?

-Posso saber o porquê desse dialogo hostil? – Os passos eram de um militar, um verdadeiro executor. Um soldado que não precisava de Athena, seu próprio código de conduta era mais rígido que as ordens de Athena. Enquanto a palavra da deusa dava ordens e movia exércitos para a batalha, a dele dilacerava exércitos. Um cavaleiro que estava acima da ética de qualquer um, que todos temiam. Shura de capricórnio, o dito executor de traidores, já que ele mesmo sem armadura desafiara e lesionara o traidor de Sagitário.

Os olhos de Shura pareciam tão afiados quanto à fama do espanhol, era forjado para ser um “inquisidor do Santuário”, e acabava de ver Aioria tentando lhe tomar o cargo.

-Ou o que?! –Aioria estava desafiador, odiava seu irmão por trair o Santuário, mas odiava também Shura por ter matado sua família, exceto a que ele salvou.

-Não esta acontecendo nada, Shura. Apenas Aioria reclamando do meu vandalismo com o degrau do Santuário. –Milo odiava lutar, odiava matar e não queria ver cavaleiros de ouro se digladiando até a morte. –Logo mandarei um dos meus servos cuidar da minha “insolência”.

-Faça isso! –dizia Shura. –E cuidado Aioria, odiaria terminar completamente com a linhagem de traidores que assola o Santuário.

O sangue de Aioria começava a subir, pensava que poderia vencê-lo. Pensava que seu cadáver seria irreconhecível com uma cápsula do poder e poderia acusá-lo de traição. E Shura simplesmente começava a subir. Milo apenas queria que ambos saíssem de sua escadaria, até que uma jovem de cabelos verdes subia a escadaria. Era a serva da casa de Leão. Lithos.

-Mestre, você está ai! Fiquei preocupada com você. –De uma posição raivosa, ele passa a ser um Aioria protetor, até porque Lithos era sua protegida. –Vamos para a casa de Leão. –Começava a puxar seu mestre que não oferecia resistência.

Milo respirava aliviado e ao mesmo tempo preocupado. Evitara uma guerra de três pessoas, mas agora sabia que era um dos suspeitos de ser um traidor. Uma guerra iria começar logo, e era uma questão de tempo até ela explodir. Só falta o lado inimigo, se é que ele é o “lado” inimigo.

*****

Rozan, as cachoeiras místicas e lendárias onde em eterna vigília se encontra o mestre Ancião. Em seu fardo enquanto admira toda aquela região crescendo, tem seus primordiais alicerce corpo e sangue de muitos cavaleiros e espectros, cobertos pelo minério místico do pó de estrela que cai sobre a região. Algo sempre nasce de guerras, dor e morte, pelo menos foi uma coisa boa. Aquelas plantas fortes, aquele chão poderoso, as águas selvagens e as pessoas que sobrevivem com humildade e respeito.

Lembrava de seus irmãos de armas, até mesmo de seus rivais, todos mortos enquanto ele vivia. Cada batida de coração ele se recriminava por estar vivo. Queria estar na companhia dos outros cavaleiros, queria poder simplesmente viver ou morrer, mas ainda tinha a sua missão para seguir. Porém, pelo cosmo que se aproximava, seu tempo de confinamento iria acabar. Não sabia se sorria ou se lamentava, como sempre apenas aceitava o fato.

Vindo de uma pequena rachadura atrás de uma das diversas cachoeiras, surgia primeiro uma linha negra que se ampliava com um formato oval. De dentro daquele cosmo vinha gritos e lamurias de mortos fadados a caminhada dos mortos. Surgia aquele dos doze guardiões das casas zodiacais, o mais sombrio e soturno, capaz com a simples visão aterrorizar os sonhos de pessoas. O mensageiro da morte e guardião das portas do inferno que o faz simplesmente em nome de Athena.

Pelo menos rezava-se para isso...

-Olá! Velhote. –Máscara da Morte, com seu olhar esguio de assassino e sanguinolento daquele italiano mórbido.

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O cavaleiro de prata da Coroa Boreal estava meditando no meio do deserto da Sibéria com ventos que matariam qualquer cavaleiro que não fosse um guerreiro do ártico. Os ventos eram assassinos e congelantes. Congelando até mesmo a umidade natural da pele, o que causaria paralisia e tremedeiras compulsivas em guerreiros santos não acostumados com o frio.

Cristal sempre foi emocional demais comparado com seu mestre e com seu pupilo Isaak, intimamente, ele parecia mais com Jacob o qual deixara treinado em uma área onde os picos de gelo quebravam os ventos. Lembrava que sua missão não era apenas treinar, lembrava que ele não era apenas um cavaleiro de Athena e um membro da Resistência Aioros, mas que também era um Guerreiro Azul, um dos cinco com uma missão especifica, que ele pretendia passar para Isaak, mas que não seria possível. Teria que delegar seu peso para Jacob com apenas seus treze anos, pois sabia que seria a última vez que olharia para as planícies geladas da Rússia...

O motivo se aproximava em passos firmes e frios, com uma razão que acalmava até mesmo a tempestade de gelo, que era a Morte Branca, para os desavisados. Seu algoz era a pessoa que ele mais admirava, a pessoa que ele tinha como exemplo de vida, por que não, como deus. E esse mesmo Deus Ártico iria puni-lo por abandonar a religião, que era a mais pura racionalidade.

Enquanto sentia ao longe o cosmo áureo se aproximando, começava a se levantar vagarosamente. E pensava porque aquela história toda era uma loucura, não fazia sentido aquela história de tanta conspiração e morte; mas seu coração dizia o contrário. Por haver tanta coisa duvidosa, que ela era. Era como confiar na existência do ar ou na gravidade quando se tem cinco anos, são coisas óbvias demais que não precisam de explicação.

E assim chegava o cavaleiro de ouro, sua certeza agora era seu poder, sua razão só seria usada para combate. Razão e emoção fazem parte da mesma pessoa, intuição é o sexto sentido que todo cavaleiro tem que ter aprimorado. Finalmente conseguia vê-lo, e nunca deixava de se surpreender com a visão do mago do gelo.

Aquele homem que aparecia envolto em uma névoa seca e fria, os longos cabelos azulados que em outras terras pareciam exóticos, ali parecia uma extensão do céu refletido no gelo. Com a capa que voava levemente, e junto com a sua armadura áurea, que lhe dava a imponência a qual era por direito dele.

Um confronto de dois guerreiros do ártico, uma batalha monumental e histórica iria começar e ninguém registraria. Geralmente eram assim que as lendas eram contadas.

*****


-Máscara de Morte, o que faz aqui o cavaleiro de ouro da quarta fortaleza do zodíaco? Fico alegre em receber visitas, mas se tivesse avisado eu teria preparado algo. –A frase veio com um misto de humildade e ironia, junto com uma risada idosa.

Máscara da Morte olha para a figura mítica e lendária no mundo dos cavaleiros de Athena. O que era irônico era que talvez o cavaleiro mais temido fosse um velho decrépito de menos de um metro e quarenta, o qual faltavam três dentes ou mesmo mais. Seria fácil demais se ele não fosse o cavaleiro de Libra.

-Desculpe velho, mas não sou muito sociável como você já deve ter ouvido falar. Vim aqui unicamente para lhe matar, nada pessoal, apenas ordens. –Uma risada mórbida e sem vontade alguma, praticamente a antítese total da risada de Dohko. Mas era a mais pura verdade, Máscara da Morte não tem nada contra o cavaleiro de libra, até mesmo tinha respeito pela figura já que o Mestre Ancião conhecera seu mestre. No entanto tinha que matá-lo, já que ele abdicara de sua consciência há muito tempo.

-Impressionante esses jovens cavaleiros que apenas “obedecem a ordens”, isso na minha época me pouparia de diversos problemas. Lembro-me de uma vez em que...

-Todo velho mesmo gosta de enrolar ou é mesmo sua senilidade lhe afetando? –O cavaleiro de Câncer interrompe o discurso do velho mestre.

-Perdão, quando se vive tanto tempo quanto eu e sozinho. Quando se encontra alguém do mesmo oficio, ficamos com vontade de dividir as experiências, passar aos mais jovens sobre nossas histórias para que eles acertem onde nós erramos, para...

-Você está começando a tornar isso pessoal, o bom que talvez eu tenha prazer nisso. –O cavaleiro italiano ia em direção ao misterioso cavaleiro de Libra para cumprir suas ordens. –E você? Não vai mesmo reagir?

-Se eu fizer isso, irei descumprir ordens diretas de Athena, e você sabe que nós vivemos para cumprir ordens, não é?!

-Mais até do que você imagina... –Máscara caminhava cada vez mais em direção ao Mestre Ancião, até que uma jovem se jogara no meio de sua trajetória com o seu corpo.

-Não vou deixar você dar um passo na direção de meu mestre. –Era Shunrei que se colocava no caminho de Máscara da Morte, com sua constituição frágil, mas com uma vontade imensa. Tentava agir como Okko, mas não tinha aquela determinação e autoconfiança, e muito menos treinamento.

-Há menos que você tenha o poder de suprimir seu cosmo inteiro e seja o próximo cavaleiro de Libra, sugiro que saia da minha frente, menina. –Máscara da Morte se satisfazia mais em matar Dohko do que Shunrei, até porque ela fazia lembrar o jeito sem autoconfiança própria e ao mesmo tempo com uma determinação ferrenha, assim como Gabrielle...

-Não! Não vou sair!!! –Shunrei já com algumas lágrimas nos olhos, mas firme em sua decisão. E por um instante via Gabrielle com seus cabelos castanhos e cacheados e olhos escuros postos na sua frente, na mesma posição, com os braços estendidos, gritando com ele.

-Shunrei, saia! –dizia o mestre Ancião para sua discípula. –Você não pode com ele. –Mas ela não queria saber, tinha que ficar lá e proteger seu mestre.

Máscara da Morte começa a lembrar de tudo que era antes de ser Máscara da Morte, antes de não ter sua consciência. Lembrava de todos, todos que agora jazem na casa de Câncer. Isso lhe deixava com ódio de si mesmo, as memórias que ele reprimia tanto tempo começam a reaparecer, e nada lhe dava mais ódio. Iria torturar e matar aquela garota por abrir aquela ferida antiga.

Levantava seu punho de maneira assassina, iria atravessá-la, mas não matá-la. Depois iria destroçar seu corpo no Yomustu Hirasaka e jogá-lo aos pedaços, mas não conseguia mais mover seu braço. Por um instante achou que era a sua consciência, mas da última vez que ela agiu dessa maneira ele completou o serviço e vomitou logo em seguida. E seu braço não tinha um cosmo próprio emanando.

-Agora mata inocente? Máscara da Morte?

-Sempre matei, Mu de Touro...

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Aldebaran finalmente chegava a seu encontro, e não encontrava o que esperava. Viu um homem nobre, loiro, altivo trajando uma armadura de maneira nobre e respeitosa. Ele estava de costas, olhando para o horizonte. Com cabelos loiros ao vento, olhando o horizonte e o sol que começava a querer a desaparecer da ilha de Andrômeda ou mesmo procurava o melhor lugar para observar o que estava prestes a acontecer.

-Fico agradecido que seja você a vir, esperava alguém com menos virtudes: como o Máscara da Morte ou mesmo aquele fanático do cavaleiro de Leão. –Albior se virava para o cavaleiro de ouro presente, e Albior poderia se passar muito bem por um cavaleiro de ouro. Sua postura autoconfiante, o ar de humildade e superioridade que todo o cavaleiro de ouro tem.

-Acho que nisso você tem razão, agora antes de nos combatermos, me responda: porque você mandou seus aprendizes primeiro e não me combateu? – Aldebaran não acreditava que um homem daqueles era capaz de uma covardia daquelas, principalmente daquela maneira inútil.

-Discípulos idealistas são geralmente bem rebeldes, preferi você combatê-los a eu os atacar. Eles são como filhos para mim, só teria coragem para nocauteá-lo se fosse outro cavaleiro, agradeço a Athena por ser você. Foi bom para eles verem realmente o nível de um cavaleiro de bronze para um cavaleiro de ouro. –Albior só tinha sinceridade nos olhos, a mesma sinceridade que Aldebaran sempre carregou.

O medo de Aldebaran era ser enganado por esses que eram os “traidores de Athena”, Athena estava no Santuário, e não era a primeira vez que tentavam um golpe desses contra o Santuário de Athena. Tinha medo que suas convicções fossem falsas, tinha medo de matar uma pessoa boa, tinha medo de deixar um algoz de Athena vivo. Pesando tudo, o lado que mais pendia era o de Athena, pois ele recebera ordens diretas de eliminar o cavaleiro de Cefeus.

Colocava-se em modo de sua força de contensão, cruzando seus braços em uma posição sólida que muitos de seus adversários pensaram que era deboche, mas na verdade era a mais pura demonstração de poder e imponência do cavaleiro de ouro da casa de Touro.

Vendo aquela posição e o aumento de cosmo de Aldebaran, sabia que teria que vencer para convencê-lo. E preparava-se também. Albior deixava suas correntes criar vida, se espalhando pelo chão na forma de uma nebulosa. Albior parecia muito mais poderoso, pois agora todo o cosmo do cavaleiro de Cefeus fluía por onde tocava a corrente, como se parte da própria ilha de Andrômeda fosse ele mesmo. Além do próprio cosmo áureo reluzindo dele, o cosmo pertencido por aqueles que alcançaram o sétimo sentido.

O incrível era que suas técnicas eram muito semelhantes: atrair o inimigo para sua defesa, para atacá-los. Era um momento tenso, até mesmo por ambos terem quase o mesmo nível de poder e técnicas similares. Era óbvio que um dos dois teria que largar a sua “defesa impenetrável” em nome de uma possibilidade de fazer o outro sair de sua defesa. Um verdadeiro combate digno dos mitológicos “mil dias de guerra” de cavaleiros de ouro.

Era algo aterrorizante, até mesmo para June que estava distante, colocando com ajuda de Spika e Heda, gravemente feridos, os que estavam em pior estado físico e mental. Sentiam na pele o atrito dos cosmos áureos, na forma mental de arrepios e terror, e na forma física de enjôo e espasmos involuntários. Mesmo sabendo que seu mestre era poderoso, nunca poderiam especular que seu poder fosse nivelado com o de um cavaleiro de ouro. Mesmo anoitecendo para os guerreiros feridos da ilha de Andrômeda, era um pôr-do-sol feito de cosmos dourados, que parecia mais vivo do que o do próprio sol. A amazona de camaleão agora sabia por que dizem que os cavaleiros de ouro são deuses com corações humanos.

-June, vamos sair desse inferno! –gritava Heda tirando ela de seu transe daquele crepúsculo artificial.

-Certo! Vamos! –June nunca considerou a ilha de Andrômeda como um inferno, mas sim como um lar, e até perder de vista seu lar, não deixou de olhá-lo, despedindo-se de seu mestre e de seu lar.

******
Kamus não acreditava, mas suas ordens eram específicas. Eliminar um traidor, que era seu próprio pupilo, seu irmão de armas, e um guerreiro do ártico assim como ele. Os cavaleiros de mesmo treinamento eram raros, e por serem raros e terem uma ligação de poderes e experiências eram considerados irmãos.

O cavaleiro áureo podia ser um iceberg por fora, mas por dentro era um verdadeiro turbilhão de confusão e emoções que passavam por dentro de si, que ele tentava abrandar com sua racionalidade e a inexorável ordem de eliminação vinda do Santuário. Seu pupilo era um traidor de Athena, alguém que ignorava a paz do Santuário e queria simplesmente o caos completo. E seu dever era eliminá-lo.

Ele não queria isso, não aceitava, mas se negasse tal ordem seria como se ele torna-se um traidor, como ele estivesse atacando a própria deusa-viva. E isso não era aceitável, trair sua religião, todos aqueles que morreram por um ideal de paz e manutenção no mundo, era uma heresia a tudo que Kamus acreditava.

Andava devagar, querendo acordar daquele pesadelo. Queria no mínimo adiar aquele momento o máximo possível. Não queria manchar a sua terra-santa gélida com sangue, principalmente com um filho do deserto de gelo.

Já era possível sentir o cosmo de Cristal a poucos metros de distância. Era um cosmo de outro guerreiro, e não o mesmo Cristal que ele treinou durante anos. Um cosmo mais poderoso e refinado, cheio de certeza, inquebrável e transparente, como seu codinome anunciava.

Até que ambos se encontram, cara-a-cara. O pupilo e o mestre, os dois guerreiros do ártico, dois cavaleiros de Athena, os dois irmãos... Numa luta em que qualquer um dos deuses bondosos estaria chorando, a própria Athena, a verdadeira, estaria gritando desesperada para evitar essa luta.

-Por quê? – Perguntava Kamus ao amigo, mais serio e compenetrado do que nunca. – Porque você traiu o Santuário? Porque você traiu Athena? Porque você traiu os nossos ideais justiça e ordem?

-Kamus, meu mestre. Não sabe o quanto eu quis explicar, a cada vez que eu lhe encontrava depois daquele dia. Quando nós o encontramos... –Cristal fechava os olhos com força e lembrava-se daquele dia, quando Marin, Albior, Guilty, Mu e ele próprio, viram aquela conversa. – Infelizmente nem tentarei te explicar, até porque a própria realidade parecia ilógica.

-O que aconteceu?! Eu só quero uma explicação plausível! –Kamus pedia uma explicação lógica. Apenas isso.

-Não posso, e você sabe. –Cristal sabia. – Eu sei que você quer saber para ir atrás dos outros, mas o que eu posso dizer é que você não está seguindo o lado verdadeiro da Justiça. Aquela Athena não é Athena. Aquele Grande Mestre não é o Grande Mestre verdadeiro.

- Vejo que eu te treinei bem demais a como estudar o inimigo, não é?! – Em parte era verdade, Kamus sempre tentava arrancar informações, mas dessa vez não era apenas isso, queria um motivo, queria saber o que levava Cristal a se tornar um traidor.

Cristal queria realmente falar, como depois daquele fato, como durante a vinda de Kamus para ver Isaak. Queria poder mandar uma carta contando tudo, queria mostrar o testamento que ele deixou para Jacob, na geleira a qual ele estava golpeando naquele momento. Na qual chorava, pois sabia que o mestre estava para se sacrificar.

-Acho que a hora das palavras acabou. E o sangue de um dos guerreiros do ártico iria macular o gelo puro da Sibéria. –dizia Cristal.

- Seja o meu ou o seu. – dizia Kamus.

E o embate mais doloroso da história do deserto de gelo: Gelo, Lágrimas e Sangue...

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Aldebaran sabia que ambos poderiam ficar ali vários dias, então resolveu atacar pelo menos para avaliar o potencial dele. E com uma simples rajada de seu poder e sem ao menos se mover, atacava Cefeus. As correntes reagem imediatamente, como um escudo, elas absorvem totalmente a rajada do cavaleiro de Touro, transformando aquela massa de poder, em alguma espécie de eletricidade que fluía pelas correntes.

O cavaleiro áureo se impressionava, a defesa das correntes de Albior se trata de absorver o cosmo lançando direcionando para seu próprio uso, o que denotava que ele não era um combatente, mas sim um manipulador de área, assim como é Kamus, Mu, Shaka, e outros... Sabia como lutar.

Durante um piscar do cavaleiro áureo, Albior simplesmente desaparece como se fosse a mais pura miragem que nunca existiu, mas as correntes estavam lá. Em uma segunda olhada mais precisa esperando que fosse uma ilusão de ótica devido ao crepúsculo que acontecia, Cefeus aparecia do nada, mais próximo a ele aplicando-lhe um soco direto nas placas de metal, eficiente se não fosse contra ele. Um golpe que o nocautearia completamente.

Aldebaran prepara seu enorme punho para esmagar o cavaleiro de prata, um golpe rápido preciso e simples, não para matar, apenas embalá-lo no manto de Morfeu. Seria simples, sem as correntes, sem a defesa de sua armadura era fácil demais... Fácil demais.

O sorriso de Albior fez o que tudo parecia mal encaixado se ajustasse. Notou que a sua orgulhosa defesa estava desarmada, e ele era enormemente inteligente, tão ou mais que Kamus. Descia o seu punho o mais rápido que podia com a ajuda da gravidade. E só sentiu pedras...

No piscar de olhos seguinte, o elmo do cavaleiro de touro voava pelo ar graças ao chute de Albior, que aparecia como um fantasma em pleno ar, com a perna esquerda esticada na nuca do gigante de touro. O corpo de Aldebaran era treinado o suficiente para aguentar aquele tipo de impacto, mas aquele golpe não era para causar danos físicos, mas sim lesionar o cerebelo e bulbo de seu oponente, que atingiria seu equilíbrio e coordenação motora. No instante seguinte, houve um segundo chute ainda em pleno o ar, e acertou a garganta de seu oponente com a ponta do pé em noventa graus com a sua perna, acertando em sua traquéia.

A falta de ar e de equilíbrio de Aldebaran é quase que sentida automaticamente. Seu mundo era agora algo desfocado, desequilibrado e sufocante, aquela era a sua realidade graças por subestimar, por um instante, seu adversário. Aquele homem minava rapidamente suas forças não atacando diretamente, mas sim atacando suas funções motoras com cálculos quase cirúrgicos e em uma velocidade impressionante para um cavaleiro de prata. O cavaleiro de touro teria que prever o próximo ataque e detê-lo, mas isso era complicado com seu mundo se deformando e com você não conseguindo respirar.

Um soco na parte frontal foi o golpe que ele não previu e nem deteve, agora seu mundo tinha obscurecido, e mesmo não vendo seu mundo girar, a própria escuridão parecia alterar sua gravidade e seu chão. Albior era letal, a lenda de seu poder não era em vão. Inteligência tática, aliada a defesa das correntes de Cefeus e a uma velocidade que era assustadora.

Albior finalmente colocava as pernas no solo da ilha de Andrômeda, e via que estava com alguma vantagem, pelo menos era o que ele esperava. Afinal, só sabia que Aldebaran era do tipo combatente, assim como ele, mas Albior sabia que apenas força não resolvia todas as situações, lutas contra seres mais poderosos ou numerosos tinham que ter planejamento, estratégia e o mínimo gasto de energia. Albior e Marin eram muito parecidos nisso, a diferença entre eles era que Marin não suportava lutas, preferia manipular seus adversários, já Albior tinha o dom para combates em desvantagem.

O cavaleiro de prata sabia que não poderia encarar Aldebaran e nenhum cavaleiro de frente, primeiro tinha que conhecer seu tipo de luta, após isso achar uma falha em sua técnica ou criar uma, para ir minando lentamente para depois aplicar o golpe com força total. Saber disso poderia ser evidente, aplicar isso com o sangue lhe fervendo e com a ameaça de morte iminente fica difícil organizar e coordenar os movimentos no calor da batalha, porém para Albior era normal.

E Aldebaran não pensava, apenas via seu mundo transmutando em algo parecido com a “luz” que todos vêem quando estão prestes a morrer. Era angustiante e doloroso, o mais impressionante era o poder e a tática do cavaleiro de Cefeus.

O guerreiro da ilha de Andrômeda se afastava consideravelmente para junto de suas correntes, e as mesmas se acoplavam suas armas em seus punhos. Voltando a sua defesa perfeita, ele começava a concentrar seu cosmo para aplicar seu golpe, o que consistia em mais um golpe. Os ventos daquela ilha, antes inertes, agora mudavam subitamente, nuvens tempestade começam a se formar também, caindo relâmpagos, a chuva começa a cair de maneira forte, para logo em seguida se tornar granizo, junto com os retumbantes e ecoantes trovões.

Aldebaran perdia ainda o sentido da audição, eram tantos sons que ele mesmo não sabia definir. Enquanto cada respiração de Albior estava sincronizada com cada ruído da ilha. E a cada vez que o cosmo de Albior aumentava, a natureza respondia, até que chegou o vento cortante. O barulho do vento começava como uma lâmina afiada sônica no ouvido do emissário do Santuário, um filete de sangue começava a sair de seus ouvidos, e alguns instantes depois começavam a sair de seus olhos. O som piorava seu raciocínio e seu próprio peito começava a queimar, pois tudo aquilo fazia inconscientemente “esquecer” de respirar.

Albior não sofria nada, pois ele estava no “olho do furacão”, o golpe dele consiste em canalizar toda a fúria da natureza e lançá-la contra seu oponente. Com os sentidos limitados e semi consciente, pouco podia fazer perante a Tempestade Nebulosa de Albior, o Cavaleiro de Prata da Constelação de Cefeus.

-TEMPESTADE NEBULOSA!!!

Toda reação natural em que os ventos pudessem ter controle param durante um instante para se reorganizarem. As correntes de ar em volta de Aldebaran praticamente o paralisam, atuando na direção contraria como uma parede de ferro que igualava a força de Aldebaran deixando uma estátua viva. Enquanto, metros à frente, um principio de furacão se formava sendo canalizada pela força de Albior, que era assustadora, uma força digna de um cavaleiro de ouro.

Enquanto isso, Aldebaran sabia que estava com sérios problemas, subestimou em um instante o adversário e estava entre a vida e a morte. Isso logo teria um fim...

********
Kamus não queria, mas teria que o fazê-lo. E com um movimento de mão, ele criara uma ventania que jamais a natureza criaria, mesmo a natureza fria do local, ela tem mais compaixão que Kamus. Cristal, em um movimento explosivo se joga para trás, sendo ainda mais rápido que a própria tempestade do Aquariano.

Cristal era muito veloz, até mais mesmo do que a tempestade criada pelo mago do gelo do Santuário. Ele deslizava sobre o gelo, como se tivesse patins, mas estava apenas com a armadura. Da tempestade saíram estacas de gelo em direção do cavaleiro de prata, o qual desviava com manobras dignas de contorcionistas, chegando a usar uma das mãos no chão, deslizando velozmente pelo deserto de gelo.

Com um movimento de pulso e o dedo indicador apontado para cima, estalagmites surgem do chão como uma ordem dada pelo próprio cavaleiro de ouro. Eram grandes como prédios de três andares com pontas de lança que cresciam no mesmo instante.

Mesmo assim o cavaleiro azul desviava-se prevendo apenas com um mínimo de intuição, onde elas cresceriam. Seus movimentos eram flexíveis, rápidos e únicos, deslizando para longe de Kamus, onde sua influência sobre o gelo poderia diminuir. Não parecia fazer esforço nenhum, ia velozmente apenas desviando como se não houvesse atrito, desviava de costas para não perder Kamus de vista.

Kamus via a disposição de treinamento de seu antigo pupilo, Kamus era o tipo de cavaleiro manipulador de área, transformando a paisagem em volta a seu bel-prazer. Já Cristal era do tipo tático, usava de técnicas inusitadas para imobilizar e minar as forças de seu inimigo. Kamus nunca realmente viu Cristal usar suas técnicas, mas o cavaleiro de prata já viu grande parte de suas técnicas, senão todas.

Com mais um movimento de mão e um aumento de cosmo surpreendente o cavaleiro áureo consegue criar uma área enorme de estalagmites gigantescas, as quais pareciam querer alcançar o céu, mas Cristal não se abalava, parecia que ele esperava isso de seu mestre. E continuava sua patinação artística que um erro iria causar sua morte.

Com um movimento de mãos horizontal, as estalagmites criavam estalagmites, menores e mais afiadas, que em saltos acrobáticos com uma velocidade assustadora Cristal ainda conseguia fugir. O cavaleiro do ártico parecia uma bala ricocheteando, em cada local em que pudesse tocar, mas sem perder o mínimo de velocidade. E começava a subir, sendo perseguido pelas lanças de gelo recém-criadas.

O cavaleiro de Cristal conseguia sair da cidade de estalagmites. O que era o plano de Kamus. Cristal voa como se tivesse asas, apenas com um mero impulso de cosmo e ainda não tirava os olhos de seu antigo tutor.

Kamus erguia o braço com a mão em uma posição de ordem para algo se levantar. O gigantesco império de estalagmites de Aquário se tornava uma cidade-monstro, onde as estalagmites cumpriam seu trabalho como presas, garras e carapaça em um corpo gélido; o qual avançava para devorar o inimigo de seu criador.

Cristal aumentava seu cosmo e usava-o como impulso para fugir da monstruosidade criada por um cavaleiro de ouro. Canalizava no braço esquerdo, o Pó-de-Diamante, como uma mordaça para o monstro que o atacava. Para no mínimo, descer em segurança.

Pousando no chão, via uma abertura direta para o corpo de Kamus, do flanco esquerdo do monstro. Um caminho fácil para a vitória. E o cavaleiro de prata avançava com a espada de Cristal para cima de Kamus.

Era o plano de Kamus.

E no caminho de Cristal surgia uma segunda cabeça, como a de uma hidra, no caminho de Cristal. O devorando. No segundo seguinte, o monstro começa se tornar uma esfera de gelo, com um brilho dourado. Prestes a explodir. O cavaleiro da décima primeira casa zodiacal com um estalo de dedo explode a prisão de gelo, diluindo seu discípulo em neve e gelo. E com uma explosão que refletiu uma gigantesca aurora boreal na Rússia.

Kamus lamentava que logo um guerreiro do ártico, logo seu discípulo, logo alguém tão próximo fosse um rebelde do Santuário. Era algo que no fundo deveria fazer sentido, a proximidade de um cavaleiro de ouro; mas era impossível Cristal ser um traidor. O cavaleiro de ouro soltava uma de suas poucas lágrimas que congelavam e viravam pó logo em seguida. E abandonava a terra que agora era o túmulo de um traidor.

Ao se virar para ir embora daquela terra cheia de lembranças, tanto boas quanto ruins, lembrava também de todo potencial que Cristal possuía, quase era possível o sentir alcançando o sétimo sentido. Na verdade, era possível até sentir o cosmo dele chegando ao sétimo sentido. E houve uma explosão vinda debaixo do gelo.

Kamus viu tudo em um flash sem reação, seu discípulo aparecendo do gelo emanando o sétimo sentido como um real cavaleiro de ouro, e com a espada de Cristal trespassando seu peito, ignorando a armadura de ouro de Aquário e seu cosmo protetor. Cristal aprofundava tanto a espada que seu punho chegou a entrar no peito de Kamus.

O cavaleiro de ouro, nunca foi tão ferido. Não conseguia racionalizar a cena, a dor, tanto física quanto emocional, era enorme. Cristal tinha nos olhos a tristeza de uma criança por ferir seu mestre e a certeza de um cavaleiro de Athena que luta pelo seu nome. Antes que Kamus pudesse pensar em algum contra-ataque, o cavaleiro da Coroa Boreal salta para longe.

Kamus tira a lâmina de seu peito e tentava controlar o desespero irracional de sua mente. Voltava a olhar para seu oponente, e novamente entrava em desespero.

Via Cristal com os braços erguidos e as mãos juntas como uma oração. Reconhecia a posição, não era uma prece de vida, mas um pedido de descanso eterno ao oponente. Era a Execução Aurora, o golpe máximo dos Guerreiros do Ártico. Quando as partículas e moléculas cessam seu movimento com o poder do gelo eterno. Alcançados apenas por aqueles que dominam o sétimo sentido, e seu ex-discípulo cumpria os pré-requisitos para isso.

Kamus se colocava na mesma posição, mesmo com o peito transbordando sangue, Cristal tinha diversos ferimentos que fariam cavaleiros de prata agonizar. Ambos defendiam a vontade da Athena que acreditavam e preparavam seus golpes com todo o cosmo que suas almas e seus corpos podiam produzir.

- EXECUÇÃO AURORA!!! – O grito mútuo foi dado pelos dois guerreiros do Ártico.

E as rajadas áureas se encontram produzindo um clarão...

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O golpe resultante na ilha de Andrômeda eleva destroços ao chão, que logo seguinte à gravidade tratava de trazer de volta. Quase que um quinto da ilha havia desaparecido, toda a biodiversidade daquela região havia sido violentamente morta, as mais próximas foram simplesmente destruídas sem vestígios de sua existência.

Quando os destroços daquela parte da ilha caíram finalmente e a poeira baixou, Aldebaran estava em pé ileso, e ainda com seu elmo na mão esquerda e com o braço direito tencionado e com a palma da mão aberta, e a partir de dois metros distante da palma da sua mão começava a linha de destruição se ampliando, onde deveria estar o cavaleiro de prata.

Partes das correntes pertencentes à armadura de Cefeus estavam destruídas aos montes, a maior tinha apenas três elos juntos, e várias partes da armadura espalhadas, mas que não dariam para encher um copo, mas nenhum sinal de Albior.

Aldebaran limpava os olhos que antes vertiam sangue como se nada tivesse acontecido e estalava os ossos do pescoço que o incomodava devido à tensão que sofrerá. Achara seu adversário distante dali, escondido atrás de uma rocha do outro lado da ilha. Que em um piscar de olhos se desloca para lá.

O mestre da ilha de Andrômeda estava apenas com as pernas da armadura em seu corpo, e mesmo assim não era nada agora além de um peso desconfortável, seu braço esquerdo tinha uma fratura exposta, um osso que se rompeu quando sua tempestade nebulosa falhou para o Grande Chifre do cavaleiro de Touro. Mesmo assim se considerava um homem de sorte, se não fosse a tempestade nebulosa, a defesa nebulosa e a própria armadura de Cefeus, seria pulverizado.

Suas costelas haviam se partido também, não conseguia respirar normalmente, tinha que respirar diversas vezes e de forma chiada. E o sangue não parava de cair, não de forma letal que o matasse de hemorragia naquele momento.

-Então essa é a diferença real dentre os cavaleiros de prata para um cavaleiro de ouro. –Falava para si mesmo, tudo que vira antes de sair do caminho do golpe do cavaleiro de touro era ele levantando e abrindo a gigantesca palma da sua mão, quando não devia se mover, devido aos golpes que lhe dera e devido aos efeitos das correntes de ar. Só havia uma explicação para aquilo...

-Não usei minha força total no começo de nossa luta. –Aldebaran aparecia respondendo a dúvida que estava transparecendo na face de Albior, e foi o erro de Albior, não considerar que ele iria usar todo o seu poder para combatê-lo. –Declara-se vencido?

-Sim, acho que pelo menos posso morrer em paz. Só prometa-me que não irá matar meus discípulos. –Sua única preocupação era com seus discípulos naquele momento. Aldebaran poderia facilmente alcançá-los e matá-lo.

-Minhas ordens eram apenas para eliminá-lo e destruir a ilha, mas já que eu venci e você mal pode se mover. Pode me explicar porque vocês são os “traidores”? Já que até agora quem atacou foi o Grande Mestre e não vocês! E por favor, desde o começo... –Aldebaran sentava-se para ouvir o relato de Albior, e aproveitava para cuidar dos ferimentos mais graves.

Um sorriso surgia do rosto ferido de Albior, pensando que todos os elogios de caráter feitos a Aldebaran eram mera especulação diante a pessoa. Albior resolvera que iria contar cada detalhe de tudo que ele sabia...

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Kamus despertava, caído no chão com o ferimento sangrando menos devido ao frio e a própria armadura usando seu cosmo para cicatrizar o ferimento. Não conseguia sentir dor, seu corpo estava anestesiado. Ao levantar um pouco mais a cabeça, via seu amigo congelado em uma esfique de gelo com a armadura de Coroa Boreal, que tinha o formato de um cristal de gelo em forma de estátua, na mesma posição da Execução Aurora.

O cavaleiro de ouro se arrastava até chegar a escultura de gelo que se tornou Cristal. Subia agarrado na rocha de gelo eterno e cristalino, como se sua vida dependesse disso, tudo isso para poder ficar em pé e olhar para o cavaleiro de prata. Olhando seu rosto de seu ex-oponente, via tristeza, determinação e o sentimento de dever cumprido.

- Valeu apena? VALEU A PENA, KURT? – Kamus batia no gelo em uma tristeza sem razão. Batendo naquele que seria o exemplo do que seria dos traidores de Athena e ao mesmo tempo, o que um cavaleiro de Athena é capaz por sua fé.

Longe dali, aplicando diversos socos na imensa rocha de gelo. Acompanhando a morte de seu mestre por seu cosmo, coberto de gelo, lágrimas e sangue; Jacob quebrava o gelo, encontrando o testamento de Cristal e suas últimas ordens...

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-Mu de Touro? Esta me confundindo. –Realmente era Mu, mas ele mesmo não entendia essa confusão.

-Desculpe, pelo coração bondoso e por ser inoportuno pensei que você era o Aldebaran, agora, se não se importar, posso continuar com o meu serviço? –Ele forçava o próprio braço, sentindo que estava mais frouxo pela simples confusão de nomes, sabia como lutar contra Lemurianos, afinal foi treinado por um e já matou um.

-Sinto que não vou poder fazer isso, até porque não posso deixar outra pessoa morrer. –Mu ainda lembrava de Esmeralda de Fênix que lutou bravamente contra um cavaleiro de ouro, mesmo sabendo que não ia vencer, não quis que aquela cena se repetisse.

Shunrei começa a flutuar para longe de Máscara da Morte, sendo colocada ao pé da cachoeira. O mestre Ancião suspira em alivio, Máscara da Morte agora terá que destroçar mais uma pessoa, mas não ali e nem agora. Ele era um homicida, mas dois cavaleiros de ouro era burrice enfrentar.

-Está bem, mas da próxima vez não haverá impedimentos... –Uma abertura surge atrás do cavaleiro italiano, guiando para o mundo dos mortos. -... E isso vale para os três. –Após entrar em seu mundo mórbido a fenda desaparece, deixando apenas arrepios assustadores na mente e na carne dos dois cavaleiros de ouro e de Shunrei.

Todos os três, sem exceção, respiram aliviados, porém com um pesar no coração, sabendo que quando pudesse iria cumprir sua promessa.

-Desculpe pela entrada assim, Grande Mestre Ancião. –Mu se curvava em respeito ao cavaleiro de Libra, que em sua cabeça era o atual Grande Mestre, e por mais que ele mesmo coordenasse os outros cavaleiros da rebelião, ele era a figura máxima, há quem ninguém poderia desrespeitar e qual a autoridade não havia par ou ao menos a qual ninguém ousaria questionar.

-Eu que agradeço, jovem Mu de Áries. Você salvou Shunrei e salvou-me de descumprir de meu dever sagrado. E salvou o próprio Máscara da Morte, deu mais um dia para ele se arrepender de seus pecados, ou mesmo para se perdoar de suas mágoas. –Eram as palavras sabias do Mestre Ancião, parecia que de alguma maneira ele conseguia ler os corações e as reais intenções de uma pessoa, vendo através de gentilezas, máscaras, bloqueios. Como uma simples definição do que era bom e mal e ainda conseguia enxergar suas nuances. –Mas acho que você não veio apenas para o meu socorro.

-Novamente o senhor tem razão, vim trazer os relatórios sobre os nossos avanços...